UM SABER POPULAR
Enquanto fenômeno culturalmente semelhante ao xamamismo, as medicinas populares mantêm um paralelo junto às sociedades tribais. Tal paralelo se fundamenta na maneira peculiar de influir sobre a natureza, visando extrair dela os recursos e benefícios que consolidam a medicina dos pajés, dos xamãs nas sociedades tribais e a do homem do campo. A medicina popular é realizada em diferentes circunstâncias e espaços (em casa, em eventos religiosas de cura) e por várias pessoas (pais, tios, avós), ou por profissionais populares de cura (benzedeiras, médiuns, raizeiros, ervateiros, parteiras, curandeiros, feiticeiros). Nesta perspectiva, a medicina popular é uma prática de cura que oferece respostas concretas aos problemas de doenças e sofrimentos vividos no dia-a-dia. Ela aproxima e fortalece as relações sociais entre as pessoas, já que pressupõe ajuda e solidariedade. Além disso, ela é uma medicina barata, próxima e acessível. Considera as crenças nas doenças, males e mazelas e o modo como enfrentá-los, através de garradas, chás, benzimentos, rezas, banhos, massagens, suadouros, escalda-pés, entre outros, é vivida pelas populações pobres, iletradas, que moram nas regiões do interior do Brasil. Esta concepção mostra que a medicina popular sobrevive, porque nestas regiões não existe qualquer outros tipo de medicina. É importante enfatizar que este título é uma edição de 1984, por isso, trata-se de um documentário muito anterior a cobertura nacional de saúde que possuímos hoje. Outro fator importante não previsto (compreensivelmente) pela autora é o atual impacto das redes sociais no contexto da sociedade. Alguns influencers digitais prometem curas milagrosas, sem respaldo na medicina tradicional, embora pareçam um tipo de medicina popular na realidade não são, pois a promessa desses influences estão vinculadas a vendas de produtos muitas vezes caros, de origem duvidosa e consequentemente perigosos à saúde. Ainda que escrito há décadas, a autora Elda Rizzo de Oliveira traz um interessante fato que vivemos até hoje, ao contrário da medicina popular a medicina tradicional normalmente não está preocupada em ajudar o homem a desenvolver as suas potencialidades para um vida melhor, ela está preocupada em aliviar o mais rápido possível os sintomas do doente, para isto usa de um instrumento tido como eficaz: o medicamento, um elemento voltado à produção/lucro da indústria farmacêutica, diante disso é importante a crítica político-econômica presente no livro, "no capitalismo não é a máquina que serve ao homem, mas este que serve à máquina". ÍNDICE Uma prática realizada por pessoas ignorantes? p. 7-15 Medicinas Populares: várias e em constantes transformações, p. 16-39 O modo capitalista de medicar no Brasil: a medicina erudita e suas formas, p. 40-57 Estado, medicina popular e medicina erudita, p. 58-77 A construção de uma nova medicina, p. 78-86 Indicações para leitura, p. 87-91 Biografia, p. 92
