As visitas que hoje estamos -

    Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira

    Iluminuras
    2012
    448 páginas
    14h 56m
    ISBN-13: 9788573213768
    Português Brasileiro

    A imagem de uma orelha descomunal bem poderia ser o emblema deste livro. De fato, ele parece ser o resultado de um ouvido absoluto para as vozes deste mundo e, de certo modo, até do outro. O partido compositivo - tão próprio aos impasses da modernidade - derevolver nas falas mesmas a realidade social e histórica que se deposita, como sedimento, na linguagem vai, aqui, a sua potência máxima. O livro é, assim, o lugar no qual, como em ondas de linguagem, essas vozes todas, múrmuras ou veementes, vêm quebrar. O rumor que então se levanta, engrossado do eco de tantas falas, emanadas de tantas vidas, faz sua atmosfera e clama aos céus por um sentido. Em vão, que o céu está vazio. Em um gesto de infinita piedade, o livro recolhe o imenso vozerio e seu clamor, porém não mais pode resgatá-los nem lhes dar um destino: com uma ironia dolorida e isenta de malignidade, pode apenas endereçá-los aos "Santos Anônimos", patronos de uma inacreditável capelinha, cuja imagem verídica o leitor - ele também um "Santo Anônimo" - encontrará ao lê-lo. Verificamos, então, que esse livro tão difícil de se classificar pertence, afinal, à grande família do romance, que, como se sabe, abriga a busca decepcionada de todos os desamparados do sentido, os exilados da pátria transcendental. Um romance-limite,no entanto, porque as falas de que é tecido ameaçam formar grupos temáticos e tramas subjacentes, ao mesmo tempo que se esgarçam em todas as direções. Ficamos pensando se é um romance em formação ou em decomposição, para logo descobrirmos que é um romance que se faz desaparecendo, ou que se forma suprimindo-se - linhagem tão central quanto ignorada nas letras brasileiras. Essa estrutura paradoxal, de si tão abstrata, que tem na morte seu ponto de fuga, acolhe aqui, entretanto, a exalação de um mundo bem determinado - o da grande comarca interiorana (caipira, melhor se diria), que se estende por São Paulo, Minas, Goiás, pedaços do Mato Grosso e do Paraná. Suplantado por um mundo que, pior que ele, não o redimiu nem transcendeu, esse dificultoso mundo caipira, meio rural, meio urbano, às vezes no limite do surreal, encontra-se agora em vias de desaparição. Em as visitas que hoje estamos, tudo o indica, ele dá o seu último suspiro.

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    Allan Gregolim21/01/2014Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    As visitas são de casa?

    Sem tempo, sem coragem e sem dinheiro fica um pouco difícil de acompanhar a literatura brasileira contemporânea. Mas neste início de 2013 resolvi arriscar e me dei bem. “As visitas que hoje estamos”, de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, é um livro fantástico. Tem sabor de coisa única e ao mesmo tempo bem familiar, bem ao gosto dos contrastes que permeiam o livro (rural/urbano, popular/erudito, parte/todo etc). “As visitas...” não é um livro convencional. Não há uma história linear sendo contada nele, nem um único narrador; várias vozes se alternam numa dicção que segue o fluxo da fala de novos-velhos caipiras, com suas estórias, causos e lendas urbanas. Cada capítulo pode ser lido separadamente, mas não está desligado dos demais. O que dá liga entre as partes é um espectro temático: os capítulos vizinhos se tocam pelos temas (religião, velhice, amores, morte etc), que sutilmente vão mudando e aparecendo também, ao longo do livro, em forma de poemas, fotos, peça de teatro. Experiência única e familiar ao mesmo tempo, como eu disse, sobretudo por eu ser como um desses novos-velhos caipiras que dão voz ao livro, sempre meio fora de lugar. Estou de visita à literatura brasileira contemporânea, mas o livro de Antonio Geraldo quase me convence de que sou de casa.

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