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    Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde -

    Mário de Carvalho

    Companhia das Letras
    2006
    320 páginas
    10h 40m
    ISBN-10: 8535908447
    Português Brasileiro
    4.1
    30 avaliações
    Leram46Lendo9Querem74Relendo0Abandonos2Resenhas2
    Favoritos4Desejados74Avaliaram30

    Lúcio Valério Quíncio é o magistrado de Tarcisis, cidade romana da Lusitânia, no século II d.C. Como dirigente máximo, ele tem de enfrentar diversas ameaças enquanto uma série de acontecimentos tumultuosos conduz o vilarejo ao descontentamento geral. No plano externo, há notícias de uma invasão bárbara iminente. Provenientes do norte da África, bandos de mouros se agrupam ao sul dos domínios romanos na Hispânia, depois de terem ultrapassado o estreito de Gibraltar. Dentro dos muros da cidade, uma nova seita, a Congregação do Peixe, começa questionar os valores da romanidade, como o politeísmo, os banhos públicos e a realização de jogos e lutas entre gladiadores. Os adeptos da nova religião adoram um único deus, que anos antes mandara à Terra o seu filho, Cristo, para salvar a humanidade. Um deus passeando pela brisa da tarde se passa num momento crítico da história do Império Romano, quando o Cristianismo começa a angariar novos adeptos, desafiando o poder central. Nessa história ficcional (Tarcisis nunca existiu), Mário de Carvalho reconstitui uma situação histórica concreta e resgata, com seu estilo límpido e envolvente, as características culturais, políticas e cotidianas do Império Romano.

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    Gabriel Alencar picture
    Gabriel Alencar04/07/2021Resenhou um livro
    0

    Uma grata surpresa!

    Esse livro foi uma agradável surpresa. Emprestado por um colega de trabalho, eu não estava botando muita fé quando comecei. Mas não demorou quase nada para me ver fisgado pelo livro de um autor português contemporâneo – e eis aí uma novidade: eu curtindo um livro de autor contemporâneo. Mas vamos à resenha. Essa história aqui se passa na cidade de Tarcisis, no século II d.C., onde acompanhamos a história de Lúcio Valério Quíncio, o duúnviro da cidade (uma espécie de prefeito). Na sua administração, ele terá que lidar com a ameaça da invasão dos mouros, politicagens entre cidadãos da própria Tarcisis e ainda sua atração por uma mulher vinculado a uma seita considerada perigosa pelo império romano: os cristãos. Esse livro é de ficção histórica, mas é facilmente algo que poderia ser ficção cristã. Acho que hoje em dia este último ainda tem um aspecto mais "confessional" ou "preachy", no sentido de não apenas contar uma história, mas informar (de certa forma) uma fé. Creio que meu primeiro livro se encaixe bem neste último. A diferença para a obra de Mário de Carvalho, é que ele fez isso totalmente pelos olhos de um não-cristão – o que também foi muito interessante. O livro é escrito num português culto e fluido ao mesmo tempo, de um jeito que há um bom tempo não via. Pra se compreender absolutamente cada palavra, me pergunto se alguém conseguiria ler sem consultar um dicionário. Ao mesmo tempo, porém, não creio que seja aquele português erudito e quase esnobe de Machado de Assis. O autor consegue fazer uma combinação fascinante de elegância e acessibilidade ao mesmo tempo. Gostei de ver na obra o sentimento de cotidiano trazido em momentos pontuais. Por exemplo, interessante a descoberta das camadas mais pobres pelo rico duúnviro. Sentimento de que existem outras histórias além da sua, não raro tão complexos e interessantes quanto, se não mais. O autor fez um trabalho de pesquisa absolutamente sensacional. Não são apenas termos, mas ele realmente reproduz uma sociedade da época. Eu que estudei algo nesse estilo, sei como é difícil encaixar tudo sem que soe acadêmico demais, sem que o autor se deixe levar pela ânsia de colocar no livro tudo que se esforçou pra aprender. Confluência de acontecimentos natural, bem encadeada e, o melhor, não segue uma fórmula padrão hollywoodiana. Achei maravilhoso perceber que o personagem se desenvolve sem pressa, que os conflitos e problemas vão surgindo de modo quase inevitável, não são forçados. Muito bom sentir que o autor está realmente caminhando conosco pela história, sem forçar nada goela abaixo. "Por mais que eu quisesse esquecer-me, ou deixar os cristãos para depois, havia sempre alguém que mos vinha lembrar." (p. 120) Não poderia deixar de comentar sobre a seita perigosa que surgiu em Tarcisis. Ao duúnviro informaram sobre gente que se reunia e praticava rituais macabros como sacrifícios humanos, orgias e crimes. Acusados de obscenidade por juntar num mesmo ambiente cidadãos e escravos; de envenenar os poços da cidade; de promover a desordem e o caos social. A seita terrível: os cristãos. Foi muito interessante ver como o povo de Deus era visto naquela época pelos ímpios e, mais, como estes reagiam àqueles. A perseguição social começou branda, mas não tardou a ficar cada vez mais intensa, até chegar o ponto em que os fiéis foram acusados publicamente e precisaram fazer a escolha fatal: renunciar ao seu Deus e cultuar o imperador, ou morrer. O livro é mais do que recomendado, muito bem escrito e concatenado. Tenho agora que colocar ele na minha lista de compras e esperar uma promoção ou um presente (#ficaadica), porque esse eu li emprestado. Mas é tão bom que posso garantir que vai entrar pra minha estante.

    2 curtidas

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    4.1 / 30
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    • 3 estrelas7%
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    Mário Costa Martins de Carvalho

    Mário de Carvalho nasceu em Lisboa em 1944. Licenciou-se em Direito e viu o serviço militar interrompido pela prisão. Desde muito cedo ligado aos meios da resistência contra o salazarismo, foi condenado a dois anos de cadeia, tendo de se exilar após cumprir a maior parte da pena. Depois da Revolução dos Cravos, em que se envolveu intensamente, exerceu advocacia em Lisboa. O seu primeiro livro, Contos da Sétima Esfera, causou surpresa pelo inesperado da abordagem ficcional e pela peculiar atmosfera, entre o maravilhoso e o fantástico. Desde então, tem praticado diversos géneros literários – romance, novela, conto, ensaio e teatro –, percorrendo várias épocas e ambientes, sempre em edições sucessivas. Utiliza uma multiforme mudança de registos, que tanto pode moldar uma narrativa histórica como um romance de atualidade; um tema dolente e sombrio como uma sátira viva e certeira; uma escrita cadenciada e medida como a pulsão duma prosa endiabrada e surpreendente. Nas diversas modalidades de Romance, Conto e Teatro, foram atribuídos a Mário de Carvalho os prémios literários portugueses mais prestigiados (designadamente os Grandes Prémios de Romance, Conto e Teatro da APE, o prémio do Pen Clube e o prémio internacional Pégaso). Os seus livros encontram-se traduzidos em várias línguas. Obras como Os Alferes, A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, A Liberdade de Pátio ou Ronda das Mil Belas em Frol são a comprovação dessa extrema versatilidade.

    14 Livros
    4 Seguidores

    Mário Costa Martins de Carvalho