Voltaire, seja em qual estilo literário for, é um autor que merece a máxima atenção. Verdade seja dita: seu pensamento era nada menos que genial e seu texto simplesmente fantástico; lendo suas obras, é difícil não perceber que se tratam de escritos realizados por alguém possuidor de uma sabedoria extrema. Ele era um espírito diferenciado, um verdadeiro e inigualável usuário da razão – em uma época que, até mesmo mais que a nossa, era dominada pela ignorância.
Em "As Cartas de Amabed”, o pensador francês tripudia da religião católica e da soberba européia; ele demonstra e humilha, através de inúmeras passagens memoráveis, muito do que contaminava – e, infelizmente, ainda contamina – o pensamento do gênero humano. Com seu sempre recorrente e fascinante discurso em prol da tolerância, Voltaire ataca a ânsia da igreja de Roma em converter àqueles possuidores de outras crenças, e, também, a febre colonizadora (destruidora) européia.
Ora, o que mais idiota do que acreditar na superioridade inerente de seu credo perante todos os outros, de sua cultura perante todas as outras? O que mais insano e contra a razão pode existir? É a pura imbecilidade humana, e ela não merece o menor respeito ou consideração, não mesmo; pois essa imbecilidade não é inofensiva, ela é vil; é aquilo que limita o desenvolvimento, é aquilo que causa o sofrimento e a barbárie; é simplesmente injustificável e inaceitável, ao menos para qualquer ser que tenha a audácia de se dizer “racional”.
Por fim, de negativo neste trabalho, talvez só possa ser citado seu fim abrupto; mas não que isso seja algo necessariamente ruim – é bem provável que a aparência de obra inacabada inclua alguns significados que ainda não compreendi adequadamente –, afinal, a mensagem do autor já havia sido passada e, apesar de tudo, consigo viver sem desfrutar de mais algumas das magníficas páginas escritas por Voltaire.