Quando três estradas formam uma bifurcação em Y, uma coisa é certa, há somente uma escolha, mas, antes de decidir, os olhos avançam e experimentam as possibilidades de cada caminho: É quando o transeunte se perde em suas dúvidas. Para uma sociedade que se veste com o vestido grosso, escuro e comprido da moral, o três é um número, no mínimo, contraditório. Espiritualmente traz a ideia de equilíbrio, mas, é exatamente o oposto quando relacionado ao carnal.
Três é aquela ponta do triângulo que vêm depois da linha reta. Três é aquele que sussurra ao ouvido, enquanto o outro interage confiante de frente. O três desestabiliza. O três revela. O três seduz. O três constrói. O três destrói.
Ao se deparar com o livro Três, de Má Matiazi, o leitor pode se enganar a primeira vista, pensando ter em mãos mais um típico caso literário de triângulo amoroso, entretanto, breve descobrirá que o livro desvela, uma a uma, as três facetas da natureza humana. A autora transita da aparência objetiva dos personagens para a subjetividade secreta, revelada pela alma dos próprios envolvidos. Assim, um personagem descreve o retrato coberto de cortinas do outro, para depois, o outro descortinar-se a si mesmo por meio de depoimentos sinceros e sem pudor. Resultado? Nada é o que parece!
E quando essa relação do físico e psicológico parece à tônica do livro, eis que surge a terceira parte: corpo e alma emergem no espiritual. E o leitor é surpreendido pela quebra da fronteira entre as partes: Três pessoas; três desejos; três planos; três demônios; três dimensões da vida humana.
Os demônios sedentos por morte e sangue; os seres malignos que habitam a obscuridade não estão no centro da trama. Estes são como chamariz para o mal no cerne dos três personagens: Desejo, ambição e luxuria.
Há muito para descobrir sobre o grosseiro Hans Mardock, a pura Helena, sua esposa, e o vizinho sedutor Hagen Hartmann. E a forma como cada segredo é revelado, acontece de forma deliciosa. Má Matiazi escreve com a ponta da pena apontada para o futuro, mas, usa um tinteiro do passado. Ela constrói com a elegância da língua culta, mas não deixa de aproveitar os novos recursos da língua portuguesa. Presenteia o leitor com um texto leve, apesar da complexidade do contexto; sempre com uma sutil beleza poética proporcionada pela configuração das palavras na frase.
Marcio R. Gotland é pós-graduado em Artes pela Unesp, ilustrador e escritor.