O Português do Brasil - Textos Críticos e Teóricos - 1 - 1820/1920

    Edith Pimentel Pinto, org.

    LTC - Edusp
    1978
    512 páginas
    17h 4m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
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    Christianne de Menezes Gally25/08/2016Resenhou um livro
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    O tema “língua do Brasil” começa a ser preocupação ainda nos primeiros decênios do século XIX. Pedra Branca, na Introdução ao Atlas Etnográfico do Globo de Adrien Balbi, escrita em 1824, depois de traçar um panorama acerca do caráter das línguas, reflexo das sociedades, “opõe o francês ao português e, a este, o ‘ramo transplantado’ para a América, que também designa como ‘idioma brasileiro’ – denominação que não implica compromisso ideológico ou conotação nacionalista” (p. xv). Em 1825, surge outro documento que denuncia a diferença entre a língua de Portugal e a do Brasil, escrito por José Bonifácio. Apesar de restringir-se à linguagem poética, o autor reivindica maior liberdade para os brasileiros na criação dos neologismos. Mas, essa questão só se tornará um problema de interesse nacional a partir de meados do século XIX, com Varnhagen. Ele caracterizará a língua do Brasil, apesar de reconhecer a unidade da língua, como diferenciada da de Portugal e do próprio território nacional, defendendo a tese da filiação castelhana da língua do Brasil, “tese retomada, posteriormente, com mais radicalismo, por Paranhos da Silva” (p. xvii). Nesse mesmo período, João Francisco Lisboa, ao comentar a obra de Varnhagen, ratifica essa diferença e conclama a superioridade da língua portuguesa “como veículo de comunicação entre civilizados...” (p. xvii). Esse argumento fixará a posição dos ortodoxos, “isto, é, aqueles que defendem a vigência da língua portuguesa no Brasil, sem repúdio das normas gramaticais...” (p. xvii). Contrariamente a essa posição definida e objetiva, Junqueira Freire introduz a contradição gerada pelos anseios românticos. Se, de um lado, ele se preocupa com o manejo das formas legítimas, que sejam sancionadas pelos clássicos, de outro, ele defende os estrangeirismos, em especial, os galicismos, por acreditar na liberdade da língua brasileira. Até meados do século XIX, então, havia aparentemente duas posições, mas não tão distintas: “a linha de Varnhagen e João Francisco Lisboa que, bem ou mal, se baseia em fatos; e a linha de Junqueira Freire, de caráter emocional” (p. xix). Ambas, porém, reverenciam os modelos clássicos portugueses e aceitam a gramática normativa; além disso, aceitam a introdução dos neologismos na língua literária e na oratória. “Movidos uns do puro nacionalismo, pois se trata de ressaltar a maior riqueza da língua do Brasil; levados outros pela consciência no inelutável das alterações sócio-culturais do léxico, empenham-se todos na defesa e na justificação dos neologismos, que se firmam como pontos vital na definição da língua do Brasil”. (p. xix). Gonçalves Dias faz algumas concessões à língua nacionalista e reverencia a gramática e o gênio da língua portuguesa. No entanto, ele “limita o cultivo dos clássicos àqueles que atenderem ao gosto brasileiro” (p. xix). É ele quem não só estabelece “pela primeira vez, o binômio fala popular/língua escrita literária” (p. xix), mas também fixa “os padrões literários brasileiros em termos de língua’ (p. xx). Macedo Soares, inicialmente, teve pensamento idêntico ao de Gonçalves Dias. Em 1860, “defendia (...) uma posição semi-ortodoxa, empenhando-se na tarefa de salvar a língua dos ‘desleixos’ dos gênios livres que ignoravam a gramática”. (p. xx). Depois de 30 anos e pesquisa, ele pondera sua posição e defende a ideia de que as normas brasileiras não entram em conflito com o sistema da língua portuguesa. Ele usa várias designações para a língua falada aqui no Brasil: dialeto, língua brasileira, língua portuguesa falada no Brasil, língua portuguesa mais legítima, etc. Apesar dos seus estudos de importante contribuição, não foram eles reconhecidos por José de Alencar, talvez porque “desconhecesse ou não valorizasse, em função dos seus propósitos, [estudos] de mesmo gênero” (p. xx). Símbolo do pensamento romântico no Brasil, Alencar, à medida que era atacado, defendia a língua que usava. Apesar dos 10 anos justificando suas ‘incorreções’, Alencar referia-se a um “português alterado, transformado no Brasil”, sem se preocupar com o seu “grau de diversificação e a sua categorização em termos de entidade linguística”. (p. xxiii). Além disso, ele sempre recorria à gramática normativa tradicional ou aos mais credenciados dicionaristas para responder aos ataques. Também fazia a diferença entre língua literária e fala comum, para quem a primeira era a correta e a segunda, só se livraria da “incorreção” se fosse abonada por escritores. “Dentre os pontos que opõem o pensamento de Alencar ao dos seus contemporâneos, destaca-se a tentativa de romper com o passado português, procurando valorizar, em contraposição, o uso de sua época, exemplificando com o seu próprio uso...” (p. xxviii). Uma proposição recorrente à época era a da superioridade da língua do Brasil sobre a de Portugal. Em relação a essa superioridade, Alencar não foi precursosr nem exclusivo. “Essa crença na superioridade da variante brasileira, que se irá firmando através de adeptos novos, das mais variadas tendências, posteriormente, se apoiará numa terceira ordem de fatores: a de que a língua do Brasil é mais pura por se concentrar aqui o maior número de cultores da tradição vernácula, conforme reconhecem os próprios portugueses, cuja variante, por ser aberta aos estrangeirismos, se vai descaracterizando” (p. xxviii). A tendência era a de documentar a língua brasileira em termos fonológicos e léxicos, de forma assistemática, tendência que vai ser seguida por Silvio Romero, João Ribeiro, etc. Os neologismos representam o nódulo central da diferença entre o português americano e o europeu; e sua aceitação justifica-se para alguns autores não só por sua utilidade, necessidade em suprir a língua naquilo que ela é carente ou pobre, como também por sua boa formação, pelo puro gosto da procriação filológica. “Note-se que o espírito polêmico, característico da época e evidenciado por Franklin Távora, tendia a radicalizar posições em termos de inovação/estabilização da língua” (p. xxx). Não foi o caso de machado de Assis que manteve relativa isenção. Nabuco, um ortodoxo, salienta que a “identidade da língua não implica a dependência literária no Brasil. Esta dependência, tacitamente suposta, ou tida como raiz dos ataques portugueses aos escritores brasileiros é que teria constituído o fulcro de toda a controvérsia nacionalista a partir de Alencar.” (p. xxxi). Os legitimistas, por sua vez, apesar de acreditarem ser a língua portuguesa a língua de prestígio entre os intelectualizados, “não abria mão do pressuposto de ser o Brasil reduto da vernaculidade (...), doutrina também partilhada pelos dialetistas separatistas...” (p. xxxi). Outro ponto de convergência entre os separatistas e legitimistas dizia respeito à rejeição da acusação dos portugueses de que os escritores brasileiros cometiam incorreções. As justificativas, porém, é que mudavam: os puristas usavam a própria gramática portuguesa para se defenderem, enquanto os separatistas recorriam “à realidade linguística brasileiroa, a única que tinham por autêntica e cuja vigência era fato presente” (p.xxxii). Não só a designação da língua no Brasil varia muito, como também a de dialeto, talvez por não terem suporte teórico para tal. Assim, dialeto “ora é um processo em vigência no presente, que consiste no aperfeiçoamento de formas ainda desorganizadas (...), ora é (...) o resultado desse processo de organização, uma realidade previsível para o futuro” (p. xxxii). A autonomia da literatura brasileira, então, se dará a partir da concepção de que a língua brasileira era superior à língua portuguesa, concepção tanto dos românticos, quanto dos seus sucessores. É a língua literária do Brasil a responsável pelas divergências entre dialetistas e separatistas não dialetistas. No final dos anos 1880, entretanto, encerra-se o apogeu dos dialetistas e inicia-se a dos puristas. Depois de praticamente esvaziadas as discussões acerca dos neologismos denominativos (os brasileirismos), reforçou-se a campanha contra os neologismos de importação, em especial aos galicismos, tornando-se questão central do pensamento purista. Aos escritores, vistos como guardiães da vernaculidade era imputada a responsabilidade pela inserção desses neologismos na língua, e a eles cabia o “ dever de expurgar as características da fala popular, peculiaridades de sabor folclórico e sinônimo de ignorância da língua, como pretendiam João Ribeiro e Rui Barbosa” (p. xxxvii). Entretanto, por perceberem que as peculiaridades existiam e, por isso, deviam lhes dar status, “passou-se a registrá-las em posição de equivalência com as peculiaridades de Portugal. Tal atitude não se destinava, é bom que se repita, a credenciar-lhes o uso (ângulo dos antigos dialetistas), mas constituía simples registro de uma outra realidade à margem da língua oficial” (p. xxxvii). O purismo lingüístico, então, atinge seu apogeu no decorrer a segunda metade do século XIX. Laudelino Freire foi um dos maiores baluartes dessa época e se opunha a qualquer liberdade para a variante brasileira, a quem chamava de co-dialeto. Outros gramáticos, porém, propunham conciliação baseada em novos princípios lingüísticos, como foi o caso de João Ribeiro, depois de revisar seus quadros teóricos. Havia também aqueles que defendiam a liberdade da língua brasileira e que lutavam por uma literatura brasileira, como é o caso de José Veríssimo. Sua posição em relação á guerra contra os galicismos, principalmente, era de aceitação. O argumento utilizado nesse sentido é o de que “a vernaculidade e o respeito á índole da língua não significavam necessariamente purismo e submissão aos modelos clássicos”. (p. xli_). Veríssimo ainda levantou questões acerca da dupla norma culta : uma para a língua falada e outra para a escrita. Para ele, “a grande arte de escrever consiste em exprimir as nossas ideias segundo o caráter da língua no momento e com o vocabulário do uso não só popular mas erudito” (p. xliii). Depois dos neologismos (incluindo aí os estrangeirismos), o principal ponto de atrito entre os tradicionalistas e os renovadores passou a ser a ortografia. “Era, porém, matéria de significação maior, pois correspondia, não mais a episódio na luta pela independência da língua ou pela autonomia do falar brasileiro, mas ao tácito reconhecimento desse fato, que permitia aos brasileiros assumirem a responsabilidade de disciplinar a representação gráfica do seu falar”. (p. xliv). Fazendo um balanço das discussões entre 1820-1920, a autora afirma que houve, sobretudo “a falta de formação e de informação linguística (...) não só por parte dos leigos, aos quais coube, predominantemente, o tratamento do assunto, mas também por parte dos especialistas” (p. xlv). O que se vê em todas essas posições, “é a afoiteza e o ecletismo, na adoção e aplicação de doutrinas estrangeiras: as citações de obras e autores, que começam a surgir depois de 1880, com maior freqüência, embora não com método, comprovam a leitura, mas nem sempre a assimilação de conhecimentos; e consequentemente, a perfilhação de teorias às vezes reciprocamente excludentes”. (p. xlvi). As discussões sobre ser a língua brasileira um dialeto, ou não, da portuguesa levaram a muitos gramáticos e filólogos brasileiros a importar teorias, principalmente as de Whitney, que subsidiassem suas convicções. “Era através da linha evolucionista que se explicava a transformação do português numa nova língua, divergindo as opiniões apenas quanto a considerar o fato já realizado ou ainda em processo. A nova língua, portanto só podia ser o brasileiro, constituído do português, sob a ação do que então se considerava substrato e superstrato indígena e africano, além das posteriores contribuições dos imigrantes.” (p. li). Na verdade, “à discussão sobre a língua do Brasil não faltavam elementos teóricos para, nos termos da época, interpretar os dados colhidos na realidade linguística vigente. As posições conflitantes dos interessados decorriam, portanto, da deficiente assimilação das doutrinas linguísticas”. (p. lvi). O argumento da tradição era, “porém, tão arraigado, que não só os puristas, defensores da vernaculidade, mas também os dialetistas e separatistas em geral combatiam o ‘desvirtuamento’ da língua, por introdução de ‘estrangeirismos’” (p. lvii). Além do “caráter impressionista do julgamento dos dados, a supervalorização da língua literária obscurecia os argumentos de outro tipo que não os históricos (a tradição de uma apreciável literatura em língua portuguesa) e, eventualmente, os estéticos (caso quase ímpar de Alencar)”. (p. LVII).

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