Definitivamente eu não me lamento por ter decidido iniciar a leitura deste livro depois de ter lido a trilogia arturiana de Bernard Cornwell. As diferenças entre os autores são tão evidentes, não apenas quanto ao enfoque da temática, mas também quanto ao estilo narrativo, que foi impossível sentir como se estivesse relendo uma história já conhecida. Nem mesmo senti repudia por cenas que Bradley teria deturpado com relação à verdadeira história de Artur e seus asseclas, até porque pouco me importo com a legitimidade do mito ‘original’.
Todavia, há muitos outros pontos no livro que de fato eu lamentei.
A premissa principal da autora é de que as mulheres britânicas daquela época sofriam dominação social e cultural imposta principalmente pelas figuras de poder masculinas cristãs, encarnadas na trama pelos padres e pelos nobres. No intuito de se rebelarem contra esta dominação, estas mulheres recorrem à antiga tradição religiosa cujo folclore anuncia a emancipação da mulher, devolvendo-lhes a responsabilidade por seu próprio destino, o que também lhe dá acesso exclusivo a uma ferramenta de transformação poderosa: a magia.
A literatura de Bradlay flui rapidamente, sem que o leitor tenha a necessidade de precisar situar o tempo todo os personagens dentro da trama. Como num jogo de xadrez em que as peças nunca mudam de cor, o branco é branco e o preto é preto, na fantasia de Bradley, o branco são os descendentes de Avalon, filhas da Deusa, e o preto são os descendentes de Roma, filhos de Cristo.
O que desequilibra completamente a trama é de ela ser narrada exclusivamente do ponto de vista das peças brancas, o que a torna tendenciosa e maçante. E o pior: já que às mulheres não era pertinente fazer nada além de sentar à fogueira, tricotar e lamentar suas malditas vidas, boa parte do livro descreve-as fazendo exatamente isso. E como lamentam! Se a autora pretendia que seus leitores sentissem na pele aquela angustia toda, ela teve grande sucesso.
A trama só sai de dentro dos castelos quando é levada até a mítica ilha de Avalon, que é comandada por uma grã-sacerdotisa de grande dotada de intenções nebulosas. Ali são ensinados os verdadeiros princípios da natureza que são encenados em rituais pra lá de exóticos e incompreendidos pelo mundo lá fora.
Durante toda a leitura deste primeiro livro eu me senti desconfortavelmente manipulado pela autora. Espero que esta primeira impressão seja logo desfeita durante o amadurecimento da trama nos livros subsequentes, pois, do contrário, será a primeira série de livros que eu comprei e terei de abandonar.