São raras as oportunidades que se tem de ver o poeta no manuseio ou na apreciação de seus próprios poemas. Não como o crítico que faz a análise, mas como o leitor comum folheando, selecionando, lendo e relendo páginas que lhe causam estranhamento e prazer. É esse poeta-leitor que também se apresenta aqui nesta Genealogia da Palavra, do consagrado poeta gaúcho Carlos Nejar. Ao selecionar poemas de três décadas e organizá-los em antologia, Nejar traça sem querer um perfil de sua obra, abrindo clareiras que conduzem à origem de sua palavra poética. Faz uma espécie de biografia onde se confundem poeta e poesia; pois como diz o próprio Nejar, "Não tive biografia mas metáforas". E como ele sabe que "Os poemas voltarão a si mesmos e serão intermináveis", esta antologia conta também com poemas inéditos. Assim, na atemporalidade que lhes é característica, as metáforas se unem, os poemas formam quase que um poema-único, onde é possível obter uma visão conjunta dessa obra que, como observa Eduardo Portella, "mantém uma unidade interna, como se houvesse assumido o compromisso de desenvolver uma mesma estrutura constelacional. Mas essa coesão característica não exclui o avanço técnico, nem perturba aquela radical ampliação de sentido, que se torna o traço identificador de seu percurso."

