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    The Female Man -

    Joanna Russ

    Gollancz
    2010
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-13: 9780575094994
    3.7
    15 avaliações
    Leram17Lendo2Querem99Relendo0Abandonos1Resenhas3
    Favoritos1Desejados99Avaliaram15

    Four women living in parallel worlds, each with a different gender landscape. When they begin to travel to each other's worlds each woman's preconceptions on gender and what it means to be a woman are challenged. Acclaimed as one of the essential works of science fiction and an influence on William Gibson, THE FEMALE MAN takes a look at gender roles in society and remains a work of great power.

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    Resenhas (3)Ver mais
    Clara Gianni picture
    Clara Gianni08/11/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A contra-utopia das lésbicas futuristas

    Minha admiração por Joanna Russ vem desde antes do meu contato com The Female Man, quando li um ou dois textos dela no Arquivo Radical — um deles, sobre a ideia de “misandria”, é interessantíssimo. Ela, uma feminista lésbica, sempre foi muito comprometida com a denúncia das mazelas da realidade (seja do regime político da heterossexualidade, da lesbofobia e da divisão entre público e privado para ocultar as desigualdades vivenciadas pelas mulheres). Na ficção científica não poderia ser diferente: crítica de livros e contos das mais diversas autorias (ela foi contemporânea de Ursula K. Le Guin e Philip K. Dick na chamada “new wave” da ficção científica estadunidense, iniciada entre os anos 60 e 70), sempre deixou bem claro que a escrita de ficção especulativa era (e é), também, uma arena política. . É deste contexto que sai “The Female Man”, em 1975. Trata-se de uma ficção científica profundamente inspirada pela teoria feminista materialista, desenvolvida na chamada “segunda onda” do movimento (entre os anos 60 e meados dos anos 80), na medida em que discute a opressão das mulheres a partir de uma vivência real, material, cotidiana, e as marcas que essas pequenas e grandes violências do cotidiano deixam em sua subjetividade. Também é marcada pelo experimentalismo da “new wave”, por seu foco no desenvolvimento das personagens, em seus sentimentos e relações interpessoais, e não necessariamente nos mecanismos tecnológicos que tornam possível o encontro interdimensional entre suas quatro protagonistas — diferentemente da chamada “ficção científica dura”, ou “sci-fi hard”. . A história se reveza no ponto de vista de quatro mulheres: Janet, Jeanine, Joanna e Jael. . Janet pertence a Whileaway, uma Terra alternativa em que uma praga eliminou a totalidade da população masculina há milênios, restando apenas mulheres. A sociedade que se desenvolveu, exclusivamente feminina, passa bem longe de ser perfeita, mas apresenta um contexto em que mulheres não são moldadas pelo medo de assédio/estupro, podem se relacionar com as mulheres que desejarem, e estão livres para desenvolver atividades científicas. Whileaway não é um mundo urbano, mas dividido em campos abertos, florestas, fazendas e vilarejos industriais para os quais suas habitantes são alocadas e realocadas para trabalhar no que for necessário. . A história se inicia quando Janet abre um portal para o mundo contemporâneo e é descoberta em plena Times Square. A partir daí, ela passa a entrar em contato com as outras personagens. . Jeanine, por sua vez, é de uma Terra em que a segunda guerra mundial jamais ocorreu, e a grande depressão se estende até a década de 60. Profundamente angustiada e reprimida, a jovem foi criada para acreditar a maior realização de sua vida seria o casamento, a validação masculina e os cuidados domésticos. Acompanhar seu crescimento ao longo da narrativa é bem interessante. . Joanna, possível alter-ego da autora, é de uma Terra mais parecida com a nossa. Uma das poucas mulheres no contexto acadêmico em que trabalha, Joanna é aquela que expressa a fúria e a angústia das expectativas masculinas depositadas sobre ela. Reativa, se autodenomina um “female man” por realizar tarefas tipicamente associadas ao masculino (graduação, pesquisa, mestrado, etc.), o que só pode significar que ela é um homem — mas então, Joanna nos questiona, se ela é homem, por que não é tratada como um? Joanna nos mostra que, não importa o que somos capazes de fazer ou o quanto conquistamos: no fim do dia, fatalmente somos reduzidas ao nosso sexo. . Jael, o ponto catalisador de toda a narrativa (e motivo pelo qual as personagens se encontram), vem de uma Terra marcada por uma guerra entre homens e mulheres, conflito este que ultrapassa os limites de sua realidade, e assume aspecto interdimensional. Interessante e assustadora, Jael é a personagem mais ambígua e questionável da obra, dividindo opiniões entre as demais protagonistas. Falar mais sobre ela renderia alguns spoilers. . A trama em si pode parecer confusa, já que o revezamento entre pontos de vista ocorre sem aviso, e nem sempre é fácil perceber qual personagem narra o quê. Isso, pessoalmente, não me incomodou, e eu me senti como que relaxada na poltrona de um avião, apenas aproveitando a viagem, seguindo minha intuição, sem me preocupar de entender e assimilar tudo. . A escrita de Russ é bastante experimental, passeando pelos universos paralelos, narrando a vida cotidiana das protagonistas e os pequenos detalhes da experiência de opressão que as angustiam (em um dos capítulos conhecemos a jovem Laura, interesse amoroso de Janet, que fornece um relato tocante sobre a repressão de sua lesbianidade). Uma ideia de enredo se delineia com o aparecimento de Jael — que, de certa forma, está ali para amarrar algumas pontas soltas da narrativa —, mas nem isso descaracteriza a escrita de fluxo de consciência de Russ. É muito menos um livro “plot-driven” que um relato de experiência e um passeio por diversos estilos literários, metalinguagens e quebras da quarta parede — em um dos capítulos, a autora antecipa as críticas que o livro receberia da crítica especializada ao escrever uma série de frases soltas como “pretensioso”, “confuso”, “imaturo” ou “feminists demais”. Ademais, a própria Joanna (autora) se intromete em alguns momentos, como o “espírito da obra”, para nos descrever certas situações. . The Female Man é um livro tocante, por vezes furioso, por vezes deliciosamente divertido, que nos apresenta possibilidades de vida, acima de tudo. Em suas passagens mais delicadas (como quando uma das personagens relembra um momento da infância em que presenciara o linchamento de uma mulher por ter sido vítima de abuso), apresenta uma raiva pungente que não pode jamais ser contida. Em vida, Russ advogava pela necessidade de se deixar inspirar pela raiva e pelos sentimentos fortes que nós, enquanto mulheres, somos ensinadas a reprimir. Em The Female Man, o resultado é incrível e catártico, um fogo que queima em silêncio, e que mal posso esperar para reler em um futuro próximo e descobrir algo novo que não tinha percebido antes.

    11 curtidas

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    Avaliações

    3.7 / 15
    • 5 estrelas27%
    • 4 estrelas33%
    • 3 estrelas40%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%
    Joanna Russ profile picture

    Joanna Russ

    Joanna Russ (22 de fevereiro de 1937 – 29 de abril de 2011) foi uma escritora e feminista americana. Tem trabalhos publicados nas áreas da ficção científica, fantasia e de crítica literária e feminista. Sua obra mais famosa é The Female Man (inédito em português), um livro que combina sátira e utopia.

    6 Livros
    0 Seguidor

    Joanna Russ