Os hábitos e os monges -

    Assionara Souza

    Kafka Edições
    2011
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-13: 9788561824136
    Português Brasileiro

    Estava de castigo. As lágrimas secaram no rosto como a cola que ficava na ponta dos dedos quando fazia os trabalhos da escola. Estranho a química. Estranho. Fechou os olhos numa careta para sentir a lágrima beliscar seu rosto. O que havia feito de tão mal? Era uma menina má. Isso estava escrito. Foi quando viu a palavra entrar por uma brecha de claridade. A palavra estava de castigo também? Parecia cansada e veio até ali depois de tanto voar? O choro havia deixado um fungar involuntário. A palavra ouviu. E a olhou nos olhos assustada. Mas ela era uma menina tão má que num zás agarrou a palavrinha assustada. Pegou a palavra entre as mãos. No meio do voo. O coração da palavra palpitava. E o corpo estava quente da fuga. Como um passarinho prestes a morrer. E o quase morrer era tão bonito! Deixou a palavra aquietar-se em suas mãos. Olharam-se por um tempo. Eram de natureza diferente a menina e a palavra. Mas uma cabia na palma da mão pequena da outra. E uma deixou-se aquietar na outra. E tanto conviveram que depois de então uma passou a habitar as linhas da palma da mão da outra.

    Resenhas (2)Ver mais
    Paulo Silas Taporosky Filho picture
    Paulo Silas Taporosky Filho12/08/2022Resenhou um livro
    3 (Bom)

    "O dia dentro da câmara de gás. Nenhuma palavra. Qualquer frase que pudesse traduzir a nostalgia mesclada de carne e cinzas. Fuligem no ar pesado de espíritos" - assim tem início "Os Hábitos e os Monges", obra de Assionara Souza que é escrita se valendo da técnica do fluxo de pensamento, em que pese não haja efetivamente um personagem a quem se possa atribuir o complexo processo de pensamento. Não que não exista, o personagem, pois ele (ou eles) aparece várias vezes fazendo as vezes de narrador, mas é que a forma da escrita da qual a autora se vale situa a obra em um contexto e formato próprios, digna de ser desbravada pelo leitor. Teo Adorno, que assina as orelhas do livro, ali registra que "neste livro-espelho os personagens não são de carne e osso, as imagens sim", dando uma ideia da complexidade com a qual a narrativa é construída. Daí o aviso prévio ao pretenso leitor no sentido de que não deve esperar uma escrita em prosa linear, uma narrativa de forma ordeira e concatenada no melhor estilo cartesiano. A escrita supera e vai para além disso, situando-se em um fluxo de impressões daquele que narra que são transcritas na mesma medida e ordem com a qual surgem na mente, resultando em uma experiência singular que é sentida quando da leitura, exigindo assim do leitor ao mesmo tempo atenção e descompromisso. "O sabor das coisas ditas sem palavras. Tudo isso aqui. Nada disso é eterno" - esse trecho que consta no finalzinho do livro de Assionara Souza talvez possa servir como um indicativo e resumo daquilo que se trata da obra: uma escrita em tom poético que se estabelece em um sentido e modo próprios. A leitura, portanto, é desafiadora - ao mesmo tempo em que é satisfatória. Estranheza e contemplação caminham juntas nas pouco mais de cem páginas que compõem esse belo livro de uma autora que deixou a sua contribuição para a literatura paranaense.

    3 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    2.4 / 7
    • 5 estrelas0%
    • 4 estrelas0%
    • 3 estrelas43%
    • 2 estrelas43%
    • 1 estrelas14%