Assim começa a história de Belelê: 1 – A abordagem Ele estava esperando há mais de uma hora. Ele sabia muito bem a que hora ela passaria por ali. Estava ansioso. Decidira que falaria com ela, daquele dia não podia passar. Usava roupa lim-pa, doada, mas de boa qualidade, apesar de um pouco folgada. Seu cabelo estava cortado e lava-do, as unhas limpas. Produzira-se para o encontro, ou melhor, para a abordagem. O ponto que escolhera não era longe da casa dela, mas afastado o suficiente: não queria que a mãe da garota ou um irmão aparecesse e estragasse tudo. Ele, enfim, a viu subindo a ladeira. Morena, alta, de uniforme da escola, mochila nas costas. É agora ou nunca. Quando ela passou por ele, levantou-se do murinho onde estava sentado, em-parelhou-se com ela. Disse: —Quando eu for prefeito, vou construir uma escada rolante aqui. Ela assustou-se, mas fez de conta que não. Avaliou rapidamente a figura que surgira a seu lado e replicou, sem interromper sua caminhada: —Então, vai ser ótimo, pois estarei bem velhinha e aí vou precisar mesmo de uma escada rolante. —Agora foi ele que se assustou, não esperava uma tirada dessas. Agora tinha certeza de que escolhera a garota certa. Ele sorria ao dizer: —Você é inteligente e muito bonita. Só falei da escada rolante para puxar conversa. Estava aqui esperando você passar. Queria conhecer você. — Começou mal com essa coisa idiota de escada rolante. —É, acho que sim. Eu não sabia como chegar em você. Você é tão bonita. — Já me disseram isso um milhão de vezes. — Ah, é?, então digo mais um milhão: você é bonita, bonita, bonita, bonita, bonita ... Quer namorar comigo? — Olha só, nem parou de chupar o dedo e já quer namorar. — E quem é que chupa dedo aqui, hem? Eu tenho treze anos. TREZE, entendeu? — E você é muito apressadinho, hem? Que coisa, diz que não é fácil chegar em mim, mas aí já está querendo namorar. —Não me leve a mal. Tem mais de um mês que espero por este momento. É claro que quero namorar com você, mas eu não pretendia falar nisso agora. Saiu, entende, saiu assim. Desculpe-me a pressa. Quantos anos você tem? — Eu também tenho Treze, perto de catorze. Mas você não tem cara, aliás nem tamanho de treze. Você está mentindo. —Não estou mentindo, juro. Tenho treze. Sou um pouco menor que você, é só isso. —Tá bom, eu acredito por enquanto. Quando chegaram perto da casa dela, eles pararam. A ladeira naquele ponto bifurcava-se em “Y”. Eles avançaram um pouco pelo braço esquerdo do “Y”, longe o sufuciente da casa da menina no outro braço. Sentaram-se num piso de cimento acima do passeio, entre duas casas. —Você tem namorado? —Ele estava confiante, ela estava ali sentada com ele, era um bom sinal. — Um monte! — Quê? — Eu tive um monte, mas agora eu não tenho nenhum. Cansei. E, além disso, vocês homens são uns chatos. — Você nem me conhece!, não pode me chamar de chato. — Hum… — Você quer namorar comigo? — Quê? — Namorar comigo, você topa? — Ai, ai, ai... já disse que cansei! — Você namora comigo uns dias, se não gostar, não namora mais, topa? — Agora preciso ir. Hoje tenho trabalho da escola pra fazer. Vou estudar com minha amiga Dalva. Depois a gente vai se encontrar com a Tânia. — Posso saber o que vocês vão fazer? — Eu não disse? E eu não disse? Você nem é meu namorado e já está pegando no meu pé. Vocês homens são todos iguais. — Não, que isso, não é nada disso. Você vai sair com suas amigas, só pensei em ir também. — Ir com a gente, que coisa, nada disso. —Eu vou junto e protejo vocês. — Olha só quem é que está falando: um tampinha valentão! — Ei, aí você me ofendeu! — Tá bom, desculpe-me. Nós só vamos ver um filme na casa da Tânia. É um documentário que o professor de geografia indicou. —E amanhã? A gente pode começar a namorar amanhã. — Namorar... mas você é insistente mesmo, hem? Amanhã à tarde a gente se encontra, mas não pense que estamos namorando ou ficando. A gente se encontra, você compra sorvete, nós conversamos, e aí a gente vê, tá legal? — à tarde? Tá bom, à tarde, então. Tá legal. Vamos tomar sorvete. — Bom, então amanhã, às cinco, aqui mesmo, tá? E você prometeu o sorvete, não é mesmo? Ali tem uma lanchonete legal. — Claro, Beatriz! — Uai, você sabe meu nome. —Claro. Um dia vi você e gostei de cara, então segui você e ouvi quando sua mãe chamou “BEATRIZZZ”. Foi assim. —Então você andou me seguindo. —Segui sim. Gostei de você desde a primeira vez. Seu nome é muito bonito. —Cê acha? Eu estou usando agora somente Triz. É assim que está em meu Orkut, no Face-book e no Twitter. E você, qual o seu nome? —Belelê. —Belelê? Que nome esquisito. —É apelido. Quando eu era bem novinho chamava borboleta de belelê. —Até que é gostoso. —Uau, você tá me achando gostoso? —Olha só que convencido. Achei seu apelido bonitinho, só isso. Olha, é melhor você me dar seu número de celular; amanhã pode acontecer alguma coisa e aí eu telefono, senão você pode ficar me esperando à toa. —Sabe, meu celular caiu e quebrou todinho. Não comprei outro ainda. Mas não vai acontecer nada. Nós vamos tomar sorvete amanhã. —Belelê mentiu descaradamente, ele não tinha celular, nem telefone fixo. Aliás, nem Orkut, Facebook, Twitter. Nem computador. Ainda bem que ela não perguntou o número do fixo nem seu e-mail. —Tá bom então. Agora preciso ir. Até amanhã, Belelê. —Até amanhã, Triz.
