De Aristóteles a C. S. Lewis, o tema da amizade vem sendo investigado pela filosofia sob as mais diferentes abordagens. E não é sem motivo: ao mesmo tempo em que a amizade é algo tido como corriqueiro, dúvidas sobre como se dá a origem do vínculo entre dois amigos, o que caracteriza uma boa amizade e como saber quando uma amizade chega ao fim são mais frequentes do que se imagina.
E aqui, o filósofo romano Cícero (106 - 43 a.C) traz sua contribuição para esta discussão singular. Em uma estrutura de diálogo - que inegavelmente torna a experiência ainda mais fluida - que bebe muito da tradição platônica, o filósofo segue os passos de Aristóteles ao defender (tal qual o estagirita no livro VIII de sua "Ética a Nicômaco") que a amizade genuína só pode ser fruto da união entre duas pessoas virtuosas, resultando em uma experiência enriquecedora para a vida, que ao promover uma edificação dos envolvidos acaba por nivelá - los, além de ser uma fonte de consolo e alegrias. Mesmo assim, nem tudo são flores: o filósofo sustenta que o curso natural da vida pode fazer com que mesmo amizades que surgem da trajetória entre os virtuosos pode chegar ao fim e também é preciso ter sensibilidade para entender quando este processo acontece. Ao final, Cícero dedica algumas páginas para advertir o leitor contra o bajulador, aqui apresentado como o oposto do amigo por adotar uma natureza de inimizade em relação à verdade.
Em tempos de vínculos superficiais, marcados pela conveniência, ler o filósofo romano convidando o leitor a entender que a amizade genuína nasce da semelhança entre os pares nos força a refletir sobre a qualidade de nossas amizades.
Sem dúvidas, este é um livro que merece a leitura.