A obra reúne crônicas que mostram a sutil capacidade da autora de transmutar temas fortuitos em matérias de relevância, graças à sensibilidade para flagrar o insólito e levar o leitor a refletir sobre sua vida e seu tempo. Algumas delas foram lidas no início dos anos 1960 nos programas Quadrante, da rádio MEC, e Vozes da cidade, da rádio Roquette-Pinto, que reuniam naquela época um time de cronistas de peso como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Rubem Braga. Nestas crônicas, a autora destaca-se como atenta observadora do mundo, dotada de lucidez e perspicácia. Como se não bastasse sua verve privilegiada para examinar o que estava à sua volta, Cecília efetua com inigualável destreza a mistura entre observação e imaginação, exercício que pode ser vislumbrado nas crônicas sobre a almejada Ilha do Nanja. Tudo por meio de uma prosa que guarda fortes raízes com sua poesia. Num tempo repleto de atropelos e injustiças, o leitor tem o privilégio de repousar seus olhos sobre crônicas como “A Ilha do Nanja” e “Natal na Ilha do Nanja”, verdadeiras flores em forma de prosa, e deixar-se envolver pelo perfume renovador de Cecília Meireles.
Ilusões do Mundo -
Cecília Meireles
Imagens de Cecília
Anunciei que estava lendo Cecília. Súbito, o espanto: Cecília? A admiração tem um motivo. Eu não costumo ler poesia e não se pensa que a Cecília tenha escrito outra coisa na vida que não fosse poesia. Logo, eu devia estar lendo poesia. No entanto, “Ilusões do Mundo” é um livro de crônicas. Cecília devia ser uma cronista bissexta, embora não tão bissexto quanto o Braga era poeta. As crônicas reunidas neste livro, no entanto, foram feitas com regularidade na década de 60. E com uma diferença fundamental: foram escritas para o rádio, não para jornais. Eis aí uma característica que pode fazer toda a diferença, e talvez auxilie a explicar o tipo de texto feito por Cecília neste livro. Na prática, não há nada neles que permita a alguém dizer que foram escritos para o rádio. Em jornalismo, o texto para o rádio é bastante diferente do texto impresso. Pois no caso da Cecília não parece haver grande diferença. A singularidade pode estar na riqueza das imagens criadas por Cecília. De fato, ao escrever um texto que não será lido, mas ouvido, sem direito a imagem alguma, é de se imaginar que estimule a imaginação do ouvinte. Cecília faz isso, e com bastante naturalidade. Grande observadora, Cecília relata episódios, cenários e impressões com uma espantosa precisão, o que inclusive exige que sejam saboreados com mais vagar durante a leitura. Não vou mentir: nem sempre a leitura é fácil. Mas em todas as outras crônicas, a riqueza do texto de Cecília e, principalmente, a ternura e a delicadeza da sua personalidade, são tão visíveis que muito dificilmente alguém não se apaixonaria pela escritora. São textos de alguma namorada nossa, bastante sensível e atenta às miudezas dessa vida. Vez ou outra (como em “A Quinhentos Metros”), a cronista bissexta se sai tão bem que ninguém desconfiaria se ao final do texto houvesse a assinatura de Rubem Braga. São, em todos os casos, crônicas bastante líricas. E ressalto outra vez as imagens evocadas, geralmente a partir da sua própria memória, e muitas vezes envoltas num ambiente de sonho. Enfim: um livro bonito. Uma poetisa que precisa ter suas crônicas conhecidas.
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