Nas crônicas reunidas em O Lavrador de Ipanema, selecionadas por ter a natureza como tema, é como se o Rubem Braga quisesse mesmo ser mais lavrador e menos cronista – o que o torna mais cronista ainda. Ao discorrer sobre mudas de plantas no jardim, árvores da sua rua e da sua memória, ele trata de infância, crenças, vida e morte. Mesmo assim, é impossível falar desse livrinho editado para o centenário do escritor, em 2013, sem usar um adjetivo óbvio: singelo.
O maior cronista brasileiro nasceu na beira do rio Amarelo, em Cachoeiro do Itapimirim. Morou em alamedas na América do Sul e chegou a ir à guerra na Itália para, por fim, se estabelecer numa cobertura de Ipanema onde cultivava um frondoso jardim que lhe rendeu o título: o lavrador de Ipanema. Em todos os lugares, tentou ignorar o cenário de cimento e nunca deixou de tecer observações sobre as plantas do presente e do passado.
Na crônica O Lavrador, narra uma conversa com um dono de sítio: “Não sabe ler, mas sabe que essas coisas escritas em papel valem muito. Pergunta pela minha profissão e tenho vergonha de contar que vivo de escrever papéis que não valem nada.” Como não se identificar? Leio e me sinto, também, a própria ignorante e inútil da cidade. E quase culpada por nós, ignorantes e inúteis da cidade, dominarmos cada vez mais o mundo e todo o espaço dele.
Mas ler os 14 textos nesta edição bonita, com os delicados desenhos de Andrés Sandoval, traz também uma outra sensação, menos negativa. Se não der vontade de fazer um curso online de jardinagem ou arranjar uma muda de planta que, se deus não estiver ouvindo, provavelmente não vingará, pela falta de jeito, no mínimo se renova o ânimo com as pequenas grandes coisas que ainda restam no cotidiano.