Rubem Wanderley Filho começou a desenhar há bastante tempo.Ou melhor, não parou de desenhar desde criança, pois todas as crianças desenham-e já disse alguém conceituado - que os artistas de desenho são gente que não pararam de fazer rabiscos depois de grandes... O presente trabalho, executado num primoroso bico-de-pena em estilo clássico,acadêmico, demonstra o virtuosismo do autor...O livro de Ruben Wanderley representa um triplo trabalho. É pesquisa técnica,baseado numa rica bibliografia(particularmente a obra do Pe. Frederico Bezerra Maciel), "Lampião seu tempo e seu reinado". É pesquisa de campo representada numa detalhada tarefa de visitação aos ambientes onde ocorreram os verdadeiros acontecimentos, às roupas, armamentos e demais testemunhas da história.É arte gráfica, contida em centenas de quadrinhos executados individualmente, sem auxílio de outrem ou máquina. É um trabalho duro, produto de esforço, abnegação e arte... Ênio Lins - Jornalista
Lampião - em quadrinhos
Ruben Wanderley Filho
Biografia em Quadrinhos
Não sei o quanto de fidelidade há na obra, mas é notório o direcionamento romantizado. Há muita coisa da visão popular exaltando Lampião como justiceiro. Isso se reforça quando a ênfase é toda no contexto da história, onde havia corrupções e banditismo não apenas no cangaço - retratados em arbitrariedades e injustiças diversas - paralelamente a um obscurecimento acentuado nas ações sanguinárias e oportunistas do cangaceiro nesse meio também. Fórmula para se construir a percepção de um herói, que acaba sendo a mensagem implícita nesse quadrinho. A arte é esmerada em reproduzir um retrato fiel de época. Esse aspecto é de destaque, notando-se várias ilustrações inspiradas em fotos. Tudo em preto e branco, sem muito rebuscamento ou acabamentos minuciosos, combinando com a rusticidade que se quer evidenciar. A história se constrói na inspiração de alguns livros, sendo o principal "Lampião seu tempo seu reinado", do Pe. Frederico Bezerra Maciel. Tem ares míticos, ao ponto do nascimento e morte do cangaceiro terem concepção profética. A obra valoriza suas fontes, redundando em narrador muito presente. Sinceramente, no geral amarra muito a história, não deixando fluir de maneira mais informal e legal a HQ. Alguns pequenos erros históricos podem ser vistos, quando se busca leituras paralelas. É o caso da indumentária de Lampião no aspecto clichê desde o início, mesmo antes de ser cangaceiro, assim como a questão do olho afetado, que resultou de embates na vida de bandoleiro. Um pouco forçado apresentar essas coisas desde a juventude. Enfim, gostei enquanto obra de aventura em tema que curto. Quanto à historicidade, tem seus acertos, mas sobretudo uma valorização popular romântica, em coisas que não traduzem toda verdade, mascarando segundo interesses. O ponto alto é a descrição da morte de Lampião em Angicos. O drama é apresentado como detalhamentos impactantes, como a degola da Maria Bonita ainda viva, vendo-se o corpo estrebuchando. Aflição... O desenrolar é de suspense com muita tensão. Acredito em bastante fidelidade nessa parte, direcionada para a imagem final do mito que se desejou construir e reverenciar. O cangaço é um campo extraordinário de informações. Continuo com muita vontade de ver mais coisas.
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