Contextualmente é o retrato de alguém, através de crônicas, contos, com muito senso de humor, sem a formação de juízos e situações incômodas, em geral manchadas pelas posições políticas, fracassos e desgraças; trata-se de uma narração memorialista objetiva, com fatos surpreendentes, que marcaram uma cidade durante um considerável momento de transição. Esse alguém é Ermínio Gatti, engenheiro, hoteleiro e um nome de peso quando se menciona o segmento de turismo e transporte urbano no país; o livro estabelece a ponte que se formou entre São Paulo e Foz do Iguaçu e, de que forma a cidade e seus atrativos foram inseridos – e passou a concorrer – no sempre futurista mercado de viagens e lazer. Não se trata, claramente, de uma biografia. Rogério Romano Bonato é o autor, jornalista, cronista, escritor e artista plástico. Mais do que tudo amigo, inconteste parceiro e testemunha dos eventos protagonizados pelo empresário e, narrados ao longo dos doze capítulos que compõem Gato Preto, Gato Branco. Em sua ótica, contrariado com a necessidade de trabalhar – a escrita – na primeira pessoa, Bonato trata de temas contundentes, passeando pela história e pontuando o que já faz parte do folclore fronteiriço, como foi o “Encontro de Terroristas”, responsável por uma tomada de posições frente às acusações sensacionalistas que envolveram a cidade com as supostas ações terroristas. Há, no entanto, deduções interessantes sobre a solidão, armas, jogo, jornalismo, futebol, tango, gastronomia, viagens e aos poucos, revelados os resumos e conteúdos que ainda serão lançados; em verdade um ensaio para os próximos livros. Segundo Ildo Carbonera, professor, escritor e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – e que assinou o prefácio, “trata-se de uma declaração de amizade, respeito (…) o narrador está constantemente atento aos fatos e às surpresas, pois sabe que o senhor Ermínio permanece na espreita, na surdina, preparando a mesa, a sala, a emboscada, o salão inteiro – para a ceia, o diálogo, a festa. Este senhor aparece envolto numa espiritualidade, associada ao humor, ao improviso e ao imprevisto.” Os jornalistas Vinícius Ferreira e Domingos Meirelles, assinam respectivamente, o posfácio e contra capa de Gato Preto Gato Branco. Meirelles considera que “Rogério Bonato, produziu uma obra que exibe a fulguração das pinturas impressionistas do século XIX. Ao reconstituir a fascinante trajetória do empresário e mecenas Ermínio Gatti, nascido no bairro paulista da Lapa, até sua glorificação como uma das lendas vivas do Paraná, Bonato capturou atmosferas, imagens e sentimentos com extraordinário senso estético. Lembranças pessoais do autor foram adicionadas, como camadas de tinta, à memória afetiva do retratado, compondo uma narrativa de notável equilíbrio cromático. A construção dos muitos retratos de Ermínio, personagem culto, sensível e elegante como um grão-vizir florentino, expõe as diferentes imagens deste mecenas incorrigível que transformou seu hotel numa gigantesca galeria de arte. O livro resgata episódios de distintas matizes, como a época em que o jovem e galante Ermínio batizava os ônibus da empresa da família com o nome de mulheres estampado na lataria. Além de render homenagem a antigas paixões, imaginava, assim, controlar melhor a enorme frota sem necessidade de decorar o número dos veículos. O artifício atraiu a atenção do escritor José Mauro de Vasconcelos. Em As Confissões do Frei Abóbora, ele escreveu: “E Françoise? Tão elegante. (…). Os outros ônibus também tinham nomes (…). Mas Françoise era diferente, parecia ter mais personalidade do que Antonella, Carmen, Dulcinéia, Silvana (…). Simpatizava sem conhecer o dono dos ônibus: devia ser um belo sonhador”. Ermínio retribuiu o elogio com fidalguia: deu a um carro novo o nome de dois personagens do livro, fazendo-o rodar até encontrar o olhar do escritor que lhe telefonou, dias depois, sensibilizado com a distinção. Ao contrário das pinturas sob encomenda, onde são eliminados traços que não agradam a quem paga pelo serviço, Ermínio deixou-se retratar sem retoques, com a edificação espiritual de quem conhece o verdadeiro significado da arte representada nos quadros e esculturas que lhe fazem companhia no Carimã.” Robson Meireles, jornalista, editor de A Gazeta do Iguaçu