14 conferências sobre Jacques Lacan -

    Fani Hisgail

    Escuta
    1989
    135 páginas
    4h 30m
    ISBN-10: 8571370192
    Português Brasileiro
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    César de Oliveira25/06/2022Resenhou um livro
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    No que a experiência psicanalítica para Freud difere da experiência psicanalítica para Lacan?

    A experiência psicanalítica freudiana é uma experiência relativa à questão da verdade, da constituição da verdade numa forma de saber, e consequentemente busca de seus efeitos, dos efeitos da revelação dessa verdade ao sujeito. Esta experiência freudiana não coloca em questão a função paterna na neurose (na verdade reafirma a crença nessa função paterna ao acreditar que há esta verdade do sujeito) e inevitavelmente esbarra (é barrada) no rochedo da castração ao término de uma análise, onde dali não se passa. A experiência psicanalítica lacaniana parte deste ponto legado por Freud e considera que há um além de toda verdade possível e de todo saber, algo que escapa de toda simbolização psíquica, que é denominado por Lacan de Real, que é diferente da realidade (que é simbolizada e imaginarizada). Essa experiência de um Real aparece a partir do momento em que a necessidade da instância paterna como sustentáculo do sujeito é questionada. A necessidade que funda o sujeito neurotico numa filiação à função paterna é que o funda submisso ao automatismo de repetição, o qual a função paterna organiza em forma de sintoma. A experiência psicanalítica lacaniana acredita que é possível abrir uma brecha na qual se produz uma experiência do abandono dessa completude da função paterna e se experiência a contingência da função paterna e se produz uma reação terapêutica positiva. Esta contingência da função paterna é contingência relativamente à função de defesa da instância paterna na constituição do sujeito. Trata-se da experiência de que não precisava de tanto pai assim para se defender de um gozo do Outro que é impossível. Mas este gozo só se revela impossível quando aparece que a função paterna é um significante contingente. A experiência própria do campo psicanalítico é uma experiência pela qual o sujeito descobre que a filiação que o sustenta e defende não é necessária. Ser psicanalista não passa por uma significação subjetiva. Está mais em haver desejo de psicanalista, que é o desejo de que a análise aconteça, que o analisando persiga seu próprio desejo, tome as decisões por si próprio e se confronte com sua própria verdade. Em outras palavras, A premissa da experiência psicanalítica freudiana é que o analisando busca uma análise por estar sofrendo; e o psicanalista interpreta o sintoma, faz aparecer o conteúdo sexual da sua fantasia por meio da decifração deste conteúdo pelo analista. Acontecia que determinadas análises paravam, embora o analisando continuasse a ir às sessões. Não havia decifração que fizesse a análise avançar, intensificando o sofrimento do analisando, numa satisfação mórbida que Freud chamou de reação terapêutica negativa, uma necessidade do analisando de repetir situações traumáticas. A prática freudiana sofreu modificações para endereçar este problema por meio de uma delimitação entre decifração (interpretação) e o lugar das "construções". A primeira está relacionada à livre associação, enquanto as "construções" seriam os fragmentos do que foi ouvido e visto, e que emergem à consciência, distorcidos e deslocados nas cenas infantis e nas fantasias, quando recordadas em análise. Porém, as "construções" limpam os detalhes hipernítidos e soltos para quem fiquem isolados na pré-história do sujeito, perdendo assim o caráter alucinatório com que apareciam no Real. A premissa da experiência psicanalítica lacaniana é não saber lidar com seu sintoma e o gozo que o leva ao ato justamente pelo Real que escapa à decifração e às "construções". É preciso chegar lá. Lá, o Real, o impossível onde se encontra o gozo. Chegar ao ouvido e ao visto alucinados para que o sujeito diga o que viu, porque o que viu foi o que identificou e com o que identificou, embora estivesse na impossibilidade de falar do que provocou o que viu e o seu sentido. Onde está o gozo não houve recalcamento nem inscrição ou simbolização. Por isso a associação livre não chega ali onde o gozo está. Quando o analisando toma como fracasso pessoal, na reação terapêutica negativa, o que é uma impossibilidade, ignora que reproduz o impossível ao nível imaginário e reitera essa posição para repetir o momento singular, mas sempre o mesmo em que falhará, preservando aí nessa repetição um gozo cego, mudo e surdo. Por isso, o gozo é o difícil a ser tratado numa análise e que pode fazê-la ser interminável. O gozo liga-se a um único significante: "não".

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