Original, inusitado, moderno. Mínimo. Um exercício vigoroso de um escritor muito talentoso, na busca pela redução e pela falha, em um mundo já reduzido e limitado. As personagens não são vazias, mas perambulam por esse mundo como se tivessem sido esvaziadas de tudo o que foram antes, como destroços da humanidade como a conhecemos (será que estamos chegando perto disso?). Até suas necessidades básicas foram reduzidas a necessidades mínimas, o que já estava, de outra forma, presente em "Fim de Partida".
"Como é" não é meu Beckett favorito e sua leitura não é exatamente prazerosa ou fluida - sim, o enredo também é reduzido, o leitor só tem acesso a informações também mínimas - mas é decididamente uma experiência nova e recompensadora de leitura; se o leitor estiver aberto a este exercício, saberá que uma retro-leitura (assim como o retrogosto, ou after-taste) é possível e que pode ser muito mais intensa do que a própria leitura, apenas com alguns poucos elementos e "uma voz quaqua por todos os lados".
Formidável o Samuel Beckett, não?