Comédias (1844-1845) -

    Martins Pena

    Martins Fontes
    2007
    452 páginas
    15h 4m
    ISBN-13: 9788560156283
    Português Brasileiro

    Dramaturgos do Brasil tem por finalidade colocar ao alcance do leitor a produção dramática dos principais escritores e dramaturgos brasileiros, alguns já consagrados em nossa historiografia teatral, outros à espera de uma (re)avaliação que lhes traga o mesmo reconhecimento.

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    Marcílio Duarte09/08/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um Martins Pena mais engraçado, maduro e certeiro na crítica social

    MARTINS PENA: COMÉDIAS (1844–1845), segundo volume da coleção Dramaturgos do Brasil dá sequência à excelente antologia editada pela WMF Martins Fontes. As comédias reunidas neste volume revelam um Martins Pena mais maduro, mais certeiro em sua “pena” satírica e mais assertivo na utilização de recursos da linguagem teatral. O resultado é uma obra cômica mais coesa, acurada e dinâmica do que as do primeiro volume. Escritas entre 1844 e 1845, elas demonstram o talento do dramaturgo para o humor e sua capacidade de levar ao palco o verdadeiro Brasil oitocentista, provocando reflexões sobre patriarcalismo, racismo, corrupção, religiosidade e as tensas relações entre Brasil e Inglaterra, além do preconceito xenofóbico de parte dos brasileiros contra a entrada massiva de imigrantes europeus, que reconfiguravam e diversificavam o tecido social no período posterior à Independência. --- O NAMORADOR OU A NOITE DE SÃO JOÃO (1844): esta comédia se passa em uma chácara no Rio de Janeiro, onde Vicente, um rico fazendeiro carioca cobiça Maria, uma mulher portuguesa casada, presa a suas terras por dívidas. Manuel, o marido, também português, percebe as investidas do velho namorador fazendeiro e tenta resolver a situação usando de estratégias surpreendentes e engraçadas. Já Luís, o jovem namorador, desafia os costumes rígidos da época, onde se relacionar com várias mulheres era um hábito radicalmente reprovado pela sociedade. Os namoradores (jovem e velho) passam por apuros e situações que os fazem refletir sobre seus hábitos impróprios. Tudo isso ocorre em meio a uma noite de São João repleta de superstições, costumes, brinquedos, paqueras e confusões amorosas, ricamente detalhadas por Martins Pena. Uma dessas superstições é a simpatia de São João, muito usada para prever o futuro amoroso (essa prática ainda está presente em algumas cidades do interior do Brasil, especialmente no Nordeste). Embora não seja uma das minhas preferidas, não posso negar que, se bem montada, pode ser muito engraçada. --- O NOVIÇO (1845): estamos falando de um verdadeiro clássico do nosso Molière brasileiro, considerada a melhor comédia de Martins Pena. Eu li o Noviço quando era bem jovem, na casa dos 20 anos, para prestar o vestibular. Agora, mais maduro, consigo entender a real profundidade dessa comédia. Basicamente, ela trata do golpe da herança, mas vai muito além desse tema, formando um verdadeiro quadro social do Brasil. Um ganancioso golpista tenta seduzir uma viúva muito rica e ainda jovem. A comédia também critica a imposição religiosa do catolicismo romano, pois na época era a religião oficial do Estado Imperial. Carlos, o protagonista, é um jovem prometido ao convento. A carreira clerical, porém, não é um desejo seu, mas uma imposição de Ambrósio, seu padrasto impostor que, ao perceber a astúcia do enteado, decide se livrar dele. Carlos traça um plano bem elaborado para abandonar a batina e lutar por seu amor. Fica claro que a intenção de Martins Pena é contrapor a boa inteligência de Carlos contra a má inteligência de Ambrósio, dois astutos adversários. O vilão encarna, podemos dizer, o autoritarismo familiar na figura do patriarca, que impõe casamentos por conveniência e tenta mascarar suas próprias ambições. Excelente crítica à elite carioca. --- O CIGANO (1845): Peça muito atual! "O Cigano" é uma comédia datada de 1845, que dificilmente será encenada atualmente, embora tenha muita riqueza histórica. Martins Pena usa com maestria sua afiada crítica aos costumes e a hipocrisia da sociedade brasileira oitocentista. O protagonista é um malandro tipicamente carioca, cheio de lábia, que engana quase todos. A comédia escancara a corrupção na zona portuária do Rio e joga luz sobre o tráfico ilegal de escravos que acontecia na surdina, mesmo após a Lei Feijó (1831) que, em tese, após pressões políticas da Inglaterra, proibia esse tipo de prática. Como a Lei Feijó não conseguia inibir os crimes, ela gerou a tradicional expressão popular “lei para inglês ver”. O Cigano é aquele tipo de comédia em que o riso é o vetor principal da reflexão. --- O CAIXEIRO DA TAVERNA (1845): é uma das minhas preferidas. A peça retrata com humor e crítica os vícios sociais e morais da burguesia carioca, porém surpreende ao retratar o português como um fracassado golpista tentando tirar vantagens sobre uma viúva brasileira. A peça se passa em uma taverna no Rio de Janeiro e apresenta um retrato irônico das relações comerciais, da ambição e da falsidade. O protagonista Manuel, caixeiro português ambicioso, trabalha há anos na taverna da viúva Angélica e sonha em enriquecer. Para isso, finge ser solteiro e tenta conquistar a confiança da viúva com o objetivo de tornar-se seu sócio. Ao longo da peça, Manuel manipula situações, adultera produtos (como vinho e aguardente), e critica os fregueses que consomem sem pagar, revelando os bastidores do comércio popular. A comédia se desenrola com personagens de diferentes classes sociais entrando e saindo da taverna, revelando os costumes, os abusos e os pequenos golpes do cotidiano carioca. --- AS CASADAS SOLTEIRAS (1845): essa comédia em três atos é uma verdadeira aula de história em forma de farsa, que expõe as tensões políticas, econômicas e culturais entre o Brasil imperial e a Inglaterra. A comédia se inicia com a chegada dos ingleses Bolingbrok e John à ilha de Paquetá, o que, no meu entendimento, pode ser interpretado como uma metáfora da Tratado de Navegação e Comércio, de 1810, um evento que marcou o fim do monopólio comercial português e abriu o Brasil à influência política e à dependência econômica britânica. Favorecidos com tarifas alfandegárias privilegiadas, os ingleses consolidaram sua presença econômica no país. Ao longo das décadas, essa relação gerou forte aversão à figura do estrangeiro, visto como oportunista e saqueador das riquezas nacionais. Na trama, Bolingbrok e John cortejam insistentemente Virgínia e Clarisse, filhas de Narciso, um homem conservador e avesso aos estrangeiros. Apesar da resistência paterna, as jovens se casam com os ingleses. No entanto, após o casamento, os maridos revelam-se autoritários e abusivos, tratando as esposas como empregadas e proibindo-as de sair ou socializar. A crítica ao patriarcalismo é evidente, mas Martins Pena vai além: ao revelar que os ingleses são protestantes (o que invalidaria o casamento perante a lei do Império, que reconhecia apenas uniões católicas) a peça também usa essa figura para denunciar a superficialidade das alianças (casamento) entre Brasil e Inglaterra. O racismo é outro elemento central na comédia. Bolingbrok frequentemente chama Narciso de “macaco”, refletindo o evolucionismo social do século XIX, que colocava a Europa como ápice do desenvolvimento humano e via o Brasil como culturalmente primitivo. Narciso, o velho pai, representa o Brasil saudosista, preso ao passado colonial, enquanto os pretendentes velhos, Pantaleão e Serapião, simbolizam Portugal decadente. Henriqueta, esposa de Jeremias, surge como figura racional e forte, ajudando a desfazer a farsa dos casamentos e reconstruir a dignidade das personagens femininas. Assim, As Casadas Solteiras revela, por meio da sátira, os conflitos entre tradição e modernidade, submissão e autonomia, e nacionalismo e dependência externa. Há também uma visão feminista, onde a inteligência e astúcia das mulheres - sobretudo de Henriqueta - uma mulher independente e autônoma, descortina todas as farsas. --- Por que ler? Martins Pena prova que o riso é uma poderosa arma de crítica social. Ao escancarar os abusos da elite, como em O Noviço ou as ambições da burguesia carioca, em O Caixeiro da Taverna, ou ao ironizar a dependência econômica externa e os preconceitos raciais em As Casadas Solteiras, o autor constrói um teatro que provoca e diverte ao mesmo tempo. Sua escrita, marcada por diálogos ágeis e personagens caricatos, revela o Brasil que se formou após a Independência, cheio de tensões, esperanças e farsas. Ler essas peças hoje é um convite à boa comédia e uma reflexão às mazelas que ainda perduram em nosso país.

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