A poesia de David Cohen não tem salto alto, pode ler que não machuca o pé. Ele nos abre um inventário de perdas. Tira versos de corredores, portas abertas de geladeiras e sintecos envelhecidos, tudo é passível e plausível à sua lira, nada escapa à sua percepção. A matéria prima são as vozes vindas de dentro: fragmentos de lembranças de avós. Namoradas que perderam a paciência. Meninas e meninos amigos de infância. Baliza de futebol feita com sandálias numa rua que mudou de nome e talvez nem exista mais. Vedada qualquer chance de recorrer às nostalgias, passar certidão de estar certo em todas as incertezas. David Cohen é poeta em contato com o chão, plantado num aqui e agora que é também passado e futuro. O menino antigo hoje brinca com as palavras, faz da poesia a sua casa de árvore, sue refúgio. Escreve com extrema leveza e simplicidade, hábil em ordenhar o leite das próprias sensações. São versos despidos de aparatos, rococós ou rebuscamentos. Poesia nua a olho nu. Mano Melo - Poeta, ator e romancista.

