Uma Tempestade como sua Memória -

    Martha Vianna

    Record
    2003
    180 páginas
    6h 0m
    ISBN-10: 8501064017
    Português Brasileiro
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    Ramon Amorim picture
    Ramon Amorim04/09/2022Resenhou um livro
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    "Não foi nada demais, claro, o que aconteceu: apenas um homem, igual aos outros, que morreu. Que importa agora se quando menino o seu grande sonho foi tocar violino?"

    Quem gosta de biografias sabe que nem sempre a narrativa alcança objetivos mínimos do gênero. É comum chegar em situações centrais da vida do biografado e sentir que a história foi muito mal contada, sem alcançar a emoção correspondente aos eventos e deixando de provocar um sentimento de envolvimento que é fundamental para o êxito do que foi contado. Para mim, a biografia "Uma tempestade como a sua memória - a história de Lia, Maria do Carmo Brito", escrita por Martha Vianna, foi um dos grandes achados literários deste ano. Lia foi dirigente da VPR num trio composto por ela, Ladislau Dowbor e Carlos Lamarca. Lia participou, em 1969, do famoso assalto milionário ao cofre da amante do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros (a organização VAR-Palmares, de Dilma Rousseff e Carlos Araújo, também atuou no assalto). E planejou, junto com o marido, Juares, o sequestro do embaixador alemão, sendo presa, em abril de 1970, durante a construção do plano. Ela esteve detida no DOI-Codi/RJ, na rua Barão de Mesquita e na Operação Bandeirante (financiada por empresários), na rua Tutóia, em SP. Desses momentos, são quase 20 páginas revelando as torturas, as redes de apoio e os impactos emocionais que vão chocando de uma forma mais pessoal e profunda porque já estamos ali suficientemente conectados a Lia. Ela se expõe de forma franca e sincera, suas fraquezas e forças são todas postas à mesa, é uma biografia humana e que não pretende servir de modelo pra ninguém. Em junho de 1970, o embaixador alemão foi sequestrado e Lia esteve na relação dos 40 presos políticos trocados pelo funcionário. A partir de então, ela passou pela Argélia, Chile (estava lá no 11/09/1973), Portugal e Angola antes de retornar ao Brasil em 1979. Recomendo muito esse livro para se entender, de um ponto vista muito generoso - sem resignação ou arrependimentos - a estatura de uma geração que fez muito pelo país. A biografia foi extremamente bem escrita, com qualidades humanas indispensáveis, e dela saímos com muito mais compreensão tanto dos significados de participação na luta política do Brasil pós 1960 quanto dos processos históricos que delineiam os desafios e a identidade militante.

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