Trecos, troços e coisas - Estudos antropólogos sobre a cultura material

    Daniel Miller

    Zahar
    2013
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-13: 9788537810576
    Português Brasileiro

    Para um sem-teto em Trinidad, é absolutamente fundamental dispor de dez pares de sapatos; nessa sociedade o ser é definido por aquilo que veste. O elegantíssimo sári manuseado com maestria pelas mulheres indianas não é apenas um índice de status; de tal forma ele se integra à vida feminina que lhe serve de meio de vida e de morte. A generalização do uso de telefones celulares entre as famílias pobres da Jamaica reforça a construção de redes de relações sociais básicas para a sobrevivência cotidiana. Reunindo uma série de ensaios elaborados a partir de pesquisas realizadas em diversas partes do mundo, o antropólogo britânico Daniel Miller afirma que nossos trecos, troços e coisas nos fazem na mesma medida em que são feitos por nós. Ao mesmo tempo em que propõe novos métodos de investigação da cultura material - em diálogo com os clássicos Marshall Sahlins e Mary Douglas -, Miller nos alerta para os riscos de analisar a cultura do outro segundo os valores da nossa própria cultura.

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    Marcos Groch14/04/2026Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Quando as coisas deixam de ser coisas

    A ideia central rompe com a visão comum que reduz as coisas a ferramentas ou símbolos. O autor apresenta a cultura material como um campo aberto e demonstra que objetos participam da constituição da vida social. O argumento mais relevante está na recusa da separação entre sujeito e objeto. Os objetos também produzem sujeitos. Essa inversão desloca o foco da análise e permite compreender práticas e identidades a partir da materialidade. A crítica à noção de função é consistente, pois evidencia que o uso não explica a diversidade dos objetos. Da mesma forma, a crítica às explicações evolucionistas mostra que a cultura não pode ser reduzida à adaptação. A noção de "humildade das coisas" é um dos pontos mais fortes do texto. Os objetos atuam de forma invisível, estruturando comportamentos e expectativas. Essa ideia dialoga com o conceito de habitus e reforça a importância dos sistemas de objetos na formação social. O texto também apresenta uma articulação entre particularismo e universalismo, mostrando o papel da etnografia na compreensão das diferenças culturais. Como limite, apesar de ser uma leitura bem humorada, exige familiaridade com debates da antropologia e da filosofia, o que pode dificultar a compreensão. Ainda assim, a construção dos argumentos mantém coerência e oferece uma base teórica consistente. A obra se destaca pela capacidade de redefinir o papel dos objetos. Ao afirmar que sujeitos e coisas se constituem mutuamente, o texto amplia o campo de análise da cultura material. Trata-se de uma leitura que contribui para pensar a relação entre materialidade, cultura e sociedade.

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