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    Uma velha página -

    Franz Kakfa

    Virtual Books
    2000
    3 páginas
    6m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    4
    2 avaliações
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    Parece que temos sido muito negligentes na defesa da pátria. Não nos intranqüilizamos por isso até agora e temos faltado com os nossos deveres; mas os últimos acontecimentos nos preocupam. Tenho uma oficina de sapateiro na praça, defronte do palácio imperial. Tão logo abro a minha loja, ao alvorecer, vejo as estradas de todas as ruas que ali desembocam, ocupadas por indivíduos armados. No entanto, não são os nossos soldados; são nômades do Norte. Não sei como puderam penetrar na nossa capital, situada tão distante da fronteira. Em todo caso, ali estão eles; parece que a sua quantidade aumenta a cada manhã. Acampam ao ar livre para seguir à sua inclinação, pois detestam habitações. Passam os dias a amolar suas espadas, a afiar a ponta de suas flechas, a se exercitar a cavalo. Transformaram esta praça, sempre tão calma e tão reservada, numa verdadeira cavalariça. Bem que tentamos algumas vezes sair das lojas para remover, pelo menos, as piores imundices, mas fazemos isso cada vez mais raramente, pois nosso trabalho é inútil e nos expõe, por sobrecarga, a passar por baixo dos cavalos selvagens ou a sermos feridos pelos chicotes. Não é possível falar com os nômades. Não conhecem nossa língua e é de duvidar que possuam uma. Para se entenderem, gritam como gralhas. Não se pára de ouvir esses gritos. Nossos costumes e usos lhes são também incompreensíveis e indiferentes. Ainda por cima não querem nada saber daquilo que se procura lhes dizer por meio de gestos. Você pode até despregar o queixo, torcer os pulsos, assim mesmo eles não o compreendem, jamais o compreenderão. Dar-lhes às vezes, na veneta fazer careta; vê-se, então, o branco dos olhos revirar e a baba espumar nos seus lábios, e no entanto isso não é para exprimir o que quer que seja, nem para atemorizar; agem assim, por ser dos seus costumes. Caso precisem de uma coisa, tomam-na. Não se pode dizer que empregam a violência. Tudo se retira diante deles, ou se lhes deixa tudo. Não estão privados de meter a mão nas minhas provisões. Mas de nada posso me queixar diante do que vejo eles fazerem com o açougueiro. Mal acaba o homem de pendurar a sua carne, logo arrebatam-na para devorá-la. Seus cavalos comem dessa mesma carne; vê-se, às vezes, um cavaleiro deitado perto do seu cavalo e abocanhando o mesmo pedaço do seu animal. O açougueiro tem medo e não ousa cortar os fornecimentos de carne. Nós o compreenderemos e nos cotizamos para sustentá-lo. Se os nômades não têm carne, quem sabe que idéia teriam? Quem sabe que idéia seguirão, mesmo possuindo carne todos os dias! Ultimamente, o açougueiro julgou que poderia ao menos livrar-se do trabalho de abater os animais e certa manhã levou um boi vivo. Não é bom que ele faça isso de novo. Fiquei uma longa hora deitado nos fundos da minha oficina, no chão, com todas as minhas roupas, todas as minhas cobertas e todos os meus travesseiros amontoados por cima de mim, para que nada ouvisse dos mugidos do boi que os nômades atacavam, de todos os lados, a fim de arrancar com os próprios dentes pedaços de carne assim mesmo quente. Desde muito tempo já a calma havia voltado, quando tive a coragem de sair; eles se estiravam, por ali, em redor do boi como embriagados em torno de uma pipa. Foi nesse instante que julguei avistar o próprio imperador numa janela do palácio; em geral, jamais aparece nos apartamentos que dão para a praça, vive sempre no mais secreto dos seus jardins; contudo desta feita ele se postou por trás de uma das janelas, pelo menos assim me pareceu, e olhava, a cabeça inclinada, para o que se passava diante do seu castelo. “O que ele conseguirá?” -perguntamo-nos todos nós. “Por quanto tempo ainda deveremos suportar esta tortura e este fardo?” O palácio imperial atraiu os nômades, mas não sabe expulsá-los. Sua porta permanece cerrada; a guarda, que antes podia ser vista sempre a entrar e sair, solenemente, posta-se por trás das janelas engradadas. A nós, operários e camponeses, é que a salvação da pátria está confiada; mas não estamos à altura de um tal dever; além disso, não nos vangloriamos de o estar. Trata-se de um mal-entendido e por causa dele morreremos.

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