Primeiramente, o livro conflita sentimentalmente com o estado do leitor que o pretende ler. Obviamente, se você tiver acabado um relacionamento ou estiver desiludido, sentirá toda a raiva e o embaralhamento sentimental descrito pelo personagem (estranha e deliciosamente, o autor se incluiu como personagem principal do mesmo) ou, o que pode ser pior, se sentirá a ex-mulher dele (dependendo de qual das pontas você assumiu no fim do relacionamento). E tudo será bem intenso para ti, pois será inevitável que você se enquadre nas situações e, mesmo inconscientemente, tome partido.
Mas a questão aqui é: Quem nunca se decepcionou com um amor?!. Partindo desse princípio, e levando em consideração os apontamentos acima, Divórcio é um livro sobre perdas e recuperação.
No entanto, se o seu estado emocional estiver um pouco mais equilibrado (e não me refiro apenas ao amor), o livro fala essencialmente sobre solidão ou sobre como as pessoas não se importam com o próximo até que ele cutuque/fira os princípios/preceitos/imagem delas ou dos seus. Como diria o próprio autor no livro: 'Ninguém' também poderia ser o nome deste livro.
Caso você tenha um perfil mais político e crítico, a obra, entre os casos citados acima, também é um livro-denúncia. O que ele descreve sobre a elite brasileira e os nossos tão saudosos (sqn!) jornalistas brasileiros é uma verdade que a grande maioria já sabe, mas infelizmente se nega a acreditar ou finge aceitar a boa imagem que eles tentam nos passar mesmo sabendo tudo o que há de podre por trás. Jornalistas que ficam denunciando a cracolândia paulistana, mas ao final da noite cheiram carreiras e carreiras de pó ou ficam se entupindo de maconha; pessoas que dizem te adorar quando você está com certa pessoa e em outro momento te recriminam por uma coisa que, supostamente, ouviram que você fez... Logo, um livro sobre a hipocrisia.
No meu caso, embora eu penda um pouco para o lado emocional equilibrado, inicialmente Divórcio me pareceu um livro sobre comiseração. Explico-me...: Depois de sofrer e adaptar tanto os meus sentimentos com as relações, acabou se tornando inadmissível que eu (ou o meu íntimo) agisse dessa forma (por mais cruel que seja a situação em que o personagem se encontra). Mesmo com o amor tão grande que ele demonstra depois que sentia, creio que tenha faltado um pouco de desapego com relação ao início. Isso, obviamente, levando em consideração que ele é escritor e que escrever nada mais é do que desapegar-se daquilo que faz todo o sentido para o nosso íntimo e expo-lo para o mundo.
Mas essa é a minha visão.
E depois o livro se desenvolve como um processo de recuperação e adaptação contínua à nova vida que segue; e aqui o livro se torna mais bonito para mim, porque ele demonstra de uma forma direta e extremamente urbana aquilo que, mesmo que apenas por um instante, todos que vivem em grandes metrópoles e passaram por situações semelhantes já sentiram. De forma mais ou menos exacerbada, Divórcio é um livro sobre você também.
E, para finalizar, o mote mais cruel do autor é nos deixar aquela dúvida entre até que ponto a ficção foi real e vice-versa. Quais as experiências de Ricardo Lísias foram (ex)postas por aqui sem que sequer nos déssemos conta disso?!
Essa talvez seja uma resposta que queiramos manter longe de nossas mentes pelo bem da ficção.