Dono de uma prosa lírica e peculiar, o português José Luís Peixoto nos apresenta, neste romance, uma família em decomposição. Utilizando constantes passagens de tempo e múltiplos pontos de vista, o autor conta as desventuras de uma numerosa família portuguesa, revela seus segredos e estranhas repetições de fatos, amores e desgostos de geração em geração.
Cemitério de Pianos -
JOSÉ LUIS PEIXOTO
Cemitério de pianos
No ano retrasado, conheci o autor José Luís Peixoto através do livro "Autobiografia" e me apaixonei pela sua escrita. Gostei tanto que tornei essa obra o foco da minha pesquisa na faculdade e continuo me aprofundando na literatura portuguesa, principalmente nos textos de Peixoto. Já li ao todo três obras desse autor (quatro, com esta) e Peixoto continua me surpreendendo. Iniciei o livro sem saber o que me esperava, pois não cheguei nem mesmo a ler a sinopse. De primeira, reconheci a escrita poética que tanto me encanta porque mesmo se tratando de prosa, o autor escreve como se ilustrasse um poema. Ao longo da história, percebi que ele fazia um jogo narrativo semelhante ao que fez em Autobiografia, quando alternava as vozes entre José e Saramago. Confesso que levei um tempo para acostumar com a troca de foco narrativo entre os três Franciscos da trama: avô, pai e filho. Me peguei muitas vezes montando uma árvore genealógica na cabeça para lembrar quem havia feito o quê, quem era irmão de quem e me distraí durante a leitura com essa quebra-cabeça, sendo necessário retomar alguns parágrafos. Mas desde o começo percebi o potencial da história. Os três homens têm sua história marcada pela dificuldade, pela violência, pelo amor e também pela música. Os personagens levam a sério sua responsabilidade com os pianos e também sua paixão pelo atletismo. As mulheres da história: mãe, irmãs, tias, são fundamentais para o desenrolar do texto e cada qual também tem seus percalços, convivem com homens agressivos e imaturos e lutam para manter a família unida apesar de tudo. Particularmente, Marta é a personagem que mais me sensibilizei, pois seu marido a desvalorizava como mãe e mulher por causa de seu peso e mesmo assim ela não sucumbiu a esses comentários maldosos. Peixoto nos mostra nesse livro a história de uma família, em três gerações, com vozes que se alternam e se misturam, mas que se assemelham pelo ofício com a música. Uma história que talvez não seja a mais bonita, mas que é possível e nos toca por identificarmos alguns paralelos com a nossa própria realidade. Sendo assim, recomendo esse livro apenas com a ressalva de não se apegar muito a linearidade dos fatos, pois, depois que conseguimos vencer essa barreira, a história se mostra profunda e sensível e digna de releitura!
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