Três dias, apenas. Foi o tempo suficiente para devorar o seu livro inteiro. Nunca li um livro tão rápido, nem mesmo quando estava começando a conhecer o mundo mágico dos livros. Até esqueci de como é sentir o cheiro de livro novo. Rubem Alves estava certo quando disse que ''quem lê não precisa cheirar pó''. Foi exatamente assim que me senti lendo O Girassol. Uma boa leitura faz a gente se esconder do mundo ao redor e olhar pra si mesmo. Ou esquecer da gente e lembrar do mundo, depende do ponto de vista.
Às vezes, o livro é o nosso único refúgio. O único ''amigo'' que a gente pode confiar. A gente esquece de onde está e se encontra nas histórias ou nos personagens. Se for uma história dramática, faz a gente parecer ridículo diante dos relatos dos outros. No meu caso, o livro foi mais um ''antidepressivo''. Já conhecia o Kadu Lago e havia me apaixonado por Confissões ao Mar. Não sei quem sofre mais quando termina um livro: quem escreve ou quem lê. Me despedacei nas últimas páginas. Logo eu, que não costumo chorar lendo um livro. A não ser por ter terminado as páginas...
O fato é que havia acabado de fazer um concurso e a única forma de esquecer a prova era a leitura. Descobri que eu tinha muito mais em comum com o personagem Mateus do que imaginava. Embora eu nem more em São Paulo e nem conheça o Rio de Janeiro, além do que todo brasileiro sabe. Talvez seja até por isso que me embriaguei na leitura. Pois não dizem por aí que quem lê também viaja?
Enfim, resolvi fazer as ''malas'' e partir para uma ''viagem'' para ''O Girassol'' , sem data certa pra voltar. E sim! Com um pouco de medo para a ''chegada''. Adoro finais que costumam ''brincar'' com a imaginação do leitor. Aqueles imprevisíveis e que a gente torce pra não acontecer. Mas, às vezes, finais assim, nos deixam abatidos. Com o pensamento aceso. Refletindo.
Para quem não sabe, O Girassol é um romance autobiográfico sobre uma grande e real paixão. Nesse cenário, Mateus é um escritor e adora se aventurar nas noites de São Paulo. A ''cidade que nunca dorme'', como todo mundo costuma dizer ou ''onde as coisas simplesmente acontecem, basta imaginar''. Bem, de forma mais simples, trata-se de uma dessas histórias e encontros de quem vive sozinho nas noites de São Paulo, transformando transas casuais em romances inesperados. Mas não espere que esse romance seja mais um daqueles que costumam ficar nas vitrines e bancas de revista, por um preço de oito reais, com as mesmas histórias de sempre. Com finais felizes e ''sem graça'', só para agradar o público, maioria conservador, de mais de 30 anos.
Por falar nisso, penso que todo educador deveria ler um livro assim, que mostre como a vida é. Não como parece ser ou como querem que seja. São livros assim que ensinam a gente crescer. A pensar por conta própria. A mudar o ponto de vista, muitas vezes, preconceituoso e mesquinho. É até engraçado dizer isso, mas quando leio os livros do Kadu lembro das frases do Rubem Alves, que volta e meia estou sempre citando por aqui. Pois o que vejo em comum entre esses dois escritores é a forma como encaram a vida. Não sei o que o Rubem Alves realmente pensa sobre a homossexualidade, mas há uma crônica que vale a pena ser lida, chamada ''O gato que gostava de cenouras''. Nela e em todas as suas crônicas que li, não há lugar para o pensamento conservador e hipócrita de que todo mundo tem que ser do jeito que a sociedade espera que seja. Ou aquele velho pensamento que diz que Deus criou o homem para ser homem e mulher para ser mulher.
Mas não vou me ater aos detalhes de algo que o próprio livro Confissões ao Mar faz a gente refletir. No caso de O Girassol, há algo muito mais profundo do que um romance entre dois caras ou três. Pra mim, é mais sobre felicidade, escolhas, amor, doação, preconceito, julgamentos, sexo, trabalho. É uma reflexão sobre a vida, sobre o quanto vale a sua vida. Pensei nisso quando li e me identifiquei com o Mateus, apesar de não me apaixonar por mulheres, rs.
Como o Mateus, adoro tomar café com leite e adoro gatos. Gosto de ficar em casa e me perder em meio aos livros e escritos. Principalmente a música. Por incrível que pareça, ouvir alguém citar o Vítor Araújo como um grande artista soou como ''música'' aos meus ouvidos. Maioria dos meus amigos nunca ouviu falar nesse grande pianista. O que é uma pena. Pois são esses ''amigos'' que costumam dizer o tempo todo que a música brasileira está morrendo. Também, assim como o Mateus, tenho medo de cobras. E só de pensar que posso ver uma, sinto calafrios, apesar de ter um tempão que não vejo. Só espero que essa leitura não me atraia pra perto de uma. Meu sangue congelaria.
Mas, como disse, tenho algo mais em comum com o Mateus. Não sei se é um azar ou uma qualidade: meus relacionamentos são frágeis. Ao meu redor, isso tem sido até normal. Parece que uma das coisas mais difíceis na vida é manter um relacionamento sério, por muito tempo. Fora o trabalho, por que é tão difícil encontrar algo que a gente goste de fazer e ganhe bem pra isso? Pelo menos, o mínimo para gente se manter alimentado e não ficar maluco. O Girassol me trouxe à tona. Me fez voltar pra si; pra minha vida. Pois como diz o autor ''No fundo, cada homem, cada mulher, cada ser composto de cérebro e sexo, realmente busca é um bocadinho de amor no coração''. Também, ''não sei dizer o que desequilibra mais o ser humano: se amor de mais ou a falta dele''.
Muitas pessoas que leram o livro, pode ter adorado a história e torcido para um final típico, desses de filmes românticos que a mídia insiste em querer mostrar que toda relação é perfeita. Que existe o bonzinho e o ruim. Mesmo porque nunca acreditei que alguém seja bom ou ruim. Cada um tem dois lados, embora, a maioria, insista em mostrar o que lhe cai melhor, aos olhos do outro. Antes de ler o livro, alguns disseram se tratar de um livro polêmico. No meu caso, não vejo um romance que fala sobre sexo e amor polêmico. Vejo um relato da vida como é de qualquer pessoa solteira, principalmente que mora e sobrevive em cidades grandes, como São Paulo.
Aliás, penso até que o sexo para as mulheres não é muito diferente do que é para os homens. Como disse o texto, tanto mulheres quanto homens querem ser amados. Acrescento que tanto os homens quanto as mulheres querem dar e receber prazer. É um pensamento atrasado as pessoas pensarem que para sentir prazer precisam necessariamente estar amando. O sexo, pra mim, é algo intenso, forte, muitas vezes incontrolável, e também necessário. Sentir prazer é necessário. Como diz o autor ''sexo não tem nada a ver com amor. É muito bom quando é feito com amor, mas fica melhor com drogas''.
Eu poderia ficar horas, falando sobre o que veio em minha cabeça quando terminei de ler esse romance. Mas, da mesma forma que o Rubem Alves disse sobre conclusões, eu repito. ''Cada conclusão faz parar o pensamento. É como desvendar um crime''. Da mesma forma, sinto que tenho que parar por aqui e deixar o leitor pensar, seguir em frente com a leitura. Ou, se preferir, deixar de conhecer, por receio que a leitura mude a sua forma de pensar. A escolha é sua, leitor.