“Coivara da memória” é o livro de estreia do escritor sergipano Francisco Dantas na literatura. Autor de vários romances, dentre eles “Os desvalidos”, “Cartilha do silêncio” e “Sob o peso das sombras”, o seu trabalho, no título em questão, demonstra a preocupação com um tema de bastante interesse nas discussões propostas nas minhas resenhas literárias: a escrita das memórias.
Para começar, esse assunto já se apresenta como pertinente tendo em vista o título do livro. “Coivara” é uma palavra de origem indígena (Tupi), cujo significado alude à técnica ancestral de queimada controlada de terras. Essa ação milenar possui o intuito de destruir e renovar a terra para novas colheitas, como se fosse um ritual de renascimento do solo para que volte a ser fértil. Esse sentido, dentro do texto, funciona como suporte metafórico, pois a coivara reaparece como um ritual de renovação da memória, utilizando da rememoração com o intuito de criar uma identidade a partir das vivências e experiências possibilitadas pela caminhada da vida.
Não obstante, a teoria da narrativa me ajuda a compreender que a leitura em questão é um processo de fluxo de consciência endossada por uma escrita em primeira pessoa de natureza autodiegética, ou seja, o narrador também é o protagonista da história.
Dito isto, o enredo, que se desenvolve à luz das memórias do narrador, apresenta um trânsito de acontecimentos e ações que intercalam cenas do presente e do passado. Dessa forma, a rememoração do protagonista-narrador são registros da infância no engenho do avô, do amor por Luciana e da passagem pelo internato em Aracaju (passado); e da realidade adulta como escrivão ao ser acusado de um crime que não cometera (presente).
Sob essas circunstâncias, o ritmo da história faz uso da múltipla temporalidade a fim de garantir que o fluxo de consciência textual possibilite a contextualização da memória do narrador-protagonista, cujo passado se torna uma forma de compreender o próprio presente, reconhecendo, dentro da própria vivência de vida, a violência, a hipocrisia e a corrupção do mundo.
Não obstante, os ritmos argumentativos são muito característicos de impressões tanto nostálgicas quanto traumáticas. Apesar da ambivalência, é nessa contradição que encontro um sujeito afetado pelo tempo, cujo Eu-rememorado é um resquício que se perdeu e apenas se mantém na memória do Eu-escritor das memórias.
A leitura desse romance de Francisco Dantas é uma oportunidade critico-histórica para conhecer, através da metáfora da coivara, o quanto contar uma história apresenta o sujeito entre o presente e o passado, isto é, envolvido-se em diferentes tempos nos quais traduzem mudanças, sentimentos nostálgicos, traumas e a busca de si mesmo ao reconhecer que a memória, pelo que posso concluir, possibilita o ritual de renovação e renascimento do seu próprio lugar no mundo.