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    Coivara da memória -

    Francisco J. C. Dantas

    Alfaguara
    2013
    360 páginas
    12h 0m
    ISBN-13: 9788579622427
    Português Brasileiro
    4.3
    19 avaliações
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    Acusado de homicídio, o protagonista-narrador de Coivara da memória passa as horas entre pilhas de processos e a redação de suas memórias, enquanto aguarda o julgamento. As razões do crime só aos poucos vão se fazendo entender, pois a rememoração obsessiva vasculha cada canto de suas lembranças. Sem maniqueísmos, e em passagens de raro lirismo, o protagonista constrói o inventário de personagens complexos – às vezes dúbios pelas incertezas da memória – que marcaram profundamente sua infância, adolescência e juventude: o quixotesco tio Burunga, o taciturno negro Garangó, o pai obstinado morto à traição – e renegado pelo sogro –, a mãe que não conheceu, o arrebatador e trágico amor de sua vida: Luciana. Ao revisitar estes e outros tantos, numa linguagem em si mesma ancorada naquele mundo agora feito em cinzas, o narrador se deixa entrever nessas lembranças pontuadas por ódios, injustiças e violências – mas também por gestos de generosidade, retidão e ternura, certo de que só a memória pode torná-lo mais humano. Francisco J. C. Dantas constrói em Coivara da memória, seu livro de estreia, republicado pela Alfaguara, uma obra fascinante, com personagens que assombram pela densidade, e uma narrativa que cativa pela beleza.

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    Pedro Rezende picture
    Pedro Rezende31/03/2026Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A escrita da coivara: memória e renovação

    “Coivara da memória” é o livro de estreia do escritor sergipano Francisco Dantas na literatura. Autor de vários romances, dentre eles “Os desvalidos”, “Cartilha do silêncio” e “Sob o peso das sombras”, o seu trabalho, no título em questão, demonstra a preocupação com um tema de bastante interesse nas discussões propostas nas minhas resenhas literárias: a escrita das memórias. Para começar, esse assunto já se apresenta como pertinente tendo em vista o título do livro. “Coivara” é uma palavra de origem indígena (Tupi), cujo significado alude à técnica ancestral de queimada controlada de terras. Essa ação milenar possui o intuito de destruir e renovar a terra para novas colheitas, como se fosse um ritual de renascimento do solo para que volte a ser fértil. Esse sentido, dentro do texto, funciona como suporte metafórico, pois a coivara reaparece como um ritual de renovação da memória, utilizando da rememoração com o intuito de criar uma identidade a partir das vivências e experiências possibilitadas pela caminhada da vida. Não obstante, a teoria da narrativa me ajuda a compreender que a leitura em questão é um processo de fluxo de consciência endossada por uma escrita em primeira pessoa de natureza autodiegética, ou seja, o narrador também é o protagonista da história. Dito isto, o enredo, que se desenvolve à luz das memórias do narrador, apresenta um trânsito de acontecimentos e ações que intercalam cenas do presente e do passado. Dessa forma, a rememoração do protagonista-narrador são registros da infância no engenho do avô, do amor por Luciana e da passagem pelo internato em Aracaju (passado); e da realidade adulta como escrivão ao ser acusado de um crime que não cometera (presente). Sob essas circunstâncias, o ritmo da história faz uso da múltipla temporalidade a fim de garantir que o fluxo de consciência textual possibilite a contextualização da memória do narrador-protagonista, cujo passado se torna uma forma de compreender o próprio presente, reconhecendo, dentro da própria vivência de vida, a violência, a hipocrisia e a corrupção do mundo. Não obstante, os ritmos argumentativos são muito característicos de impressões tanto nostálgicas quanto traumáticas. Apesar da ambivalência, é nessa contradição que encontro um sujeito afetado pelo tempo, cujo Eu-rememorado é um resquício que se perdeu e apenas se mantém na memória do Eu-escritor das memórias. A leitura desse romance de Francisco Dantas é uma oportunidade critico-histórica para conhecer, através da metáfora da coivara, o quanto contar uma história apresenta o sujeito entre o presente e o passado, isto é, envolvido-se em diferentes tempos nos quais traduzem mudanças, sentimentos nostálgicos, traumas e a busca de si mesmo ao reconhecer que a memória, pelo que posso concluir, possibilita o ritual de renovação e renascimento do seu próprio lugar no mundo.

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