Mário de Andrade, vindo de uma ruazinha da Barra Funda, Zona Oeste do meu tão amado estado São Paulo, foi precursor do Modernismo e grande nome, da literatura, da Semana de Arte Moderna de 1922.
Não poderia ter sido em outro estado que não aqui, no berço da industrialização, com os medos da guerra, com a burguesia que falia ou se adaptava, num antro de Universitários almejando mais ao olhar as vanguardas europeias do outro lado do oceano e dando adeus ao bacharelado vazio do Parnasianismo.
Mário era um homem de muitas vontades, muitos estudos. Ao longo da vida, em sua poesia e com a pesquisa da divina Telê Ancona Lopez, dá pra se ver sua angústia do projeto de identidade nacional ir por água abaixo. Foi mesmo?
Graças a Mário, tivemos abertura pra Drummond, que para muitos é o grande poeta brasileiro - quiçá mundial - e nunca haverá outro. Vimos Bandeira modernista, a derrocada de Oswald. Foi Mário, com seu herói sem nenhum caráter, que é todos e tudo e portanto nenhum, que trilhou caminho para abertura de falas sobre as feridas incuráveis do nosso país; Graciliano, Guimarães, Clarice, Jorge Amado... Hoje, temos Emicida, Os Racionais, tivemos Bossa Nova graças a esse caminho duro percorrido entre tentar conectar o erudito e o popular, o primitivo e o moderno, as canções nordestinas e as redondilhas românticas.
Mário foi o gigante do nosso país, que morreu muito cedo se sentindo muito pequeno, nessa cidade que tudo engole como vemos em "Meditação sobre o Tietê" pois a ditadura não só desfez seus projetos sociais mais lindos, mas o mundo em guerra e um país cada vez mais caminhando para tristezas insondáveis fez com que o poeta se fechasse em si para sempre.
Li para uma matéria de Literatura Brasileira na USP, mas acho que a dívida do país com Mario pra sempre será eterna e deveríamos conhecê-lo desde cedo.
O arlequim animado, inocente e iludido com a desvairada São Paulo que se tornaria o homem já adoecido em si, desistente da informalidade popular, correndo atrás de uma tristeza profunda em Lira Paulistana. Lira é aquilo que Paulicéia não conseguiu, retrato real e atemporal de uma cidade cruel e que sobe prédios cada vez mais enquanto gente passa frio e perdemos chances de nos renovar como sociedade.
Clã é o irmão brasileiro em poesia de Macunaíma, o "plágio perfeito" do autor, lindo livro, mas que não sei se satisfez a ânsia dele pela busca da identidade brasileira, que no fim era a busca pela identidade de si mesmo. Os livros que mais são sobre o eu, Remate dos Males e Livro Azul, revelam que talvez em nada tenha dado as buscas se não amores jovens com fim, uma bissexualidade velada, poemas dedicados aos amigos e um modernismo em decaída.
Meus livros preferidos foram dois que são ambíguos, um é sobre nós, essa casca dura de brasileiros onde somos tudo: Clã do Jabuti. Esse que tanto fala do outro, no fim fala de si, como nós "Dois Poemas Acreanos". O outro, que reflete os males que o afligem individualmente, tão social é, geral, universal, dores de amores que todos sentem nessa terra vermelha que não ama ninguém: Remate dos Males.
Mário foi o jabuti de todos nós, um jabuti azul, remetendo a seu interior melancólico, jamais um Pedro como em "Agora eu quero cantar".
No fundo, artisticamente produzimos o que produzimos hoje por ele ter tido esse anseio gigante em demonstrar a pluralidade de todas as regiões Brasileiras em uma. Infelizmente não viramos algo "um só" e ainda procuramos o que há para nós. Nas palavras de seu herói "tem mais não." Talvez parte da procura não esteja no agora, mas sim no passado também, uma junção do Modernismo que olhava para o futuro e hoje também é história, junto do nosso presente.
Esse livro é a prova material de nossa identidade, ou pelo menos uma parte dela. Parte em losangos; arlequinais, cubistas paulistanos, cáqui, café, com defeitos, azuis, machucados...