Dar El-Tifel é um orfanato e escola para meninas, em Jerusalém, fundado por Hind Husseini, que acredita que a educação é o melhor caminho para a paz. Contudo, Miral, uma jovem criada na instituição e indignada com os horrores dos conflitos entre palestinos e israelenses, começa a flertar com a resistência armada, colocando em xeque as crenças que Hind sempre semeou entre suas alunas. Qual seria o melhor caminho para conquistar a justiça? Com base em suas próprias experiências, a autor Rula Jebreal expõe a partir de um ponto de vista pouco explorado - os das mulheres palestinas - os problemas dessa região tão peculiar.
A Estrada das Flores de Miral -
Rula Jebreal
Continuem falando sobre a Palestina
O genocídio na Palestina é um dos poucos assuntos capazes de me provocar uma raiva tão pura, tão intensa, um ódio que me faz querer chorar de pura revolta. Porque é absurdo. Grotesco. E quanto mais você estuda, quanto mais entende, mais se radicaliza. Li Ghassan Kanafani há alguns anos e foi um choque. Assisti a documentários sobre Leila Khaled e a FPLP. E, todos os dias, os vídeos, as lives, o horror e a destruição em Gaza e na Cisjordânia continuam aparecendo nas redes sociais, por mais que a grande mídia tente ignorar. Tudo isso alimenta a raiva, porque destrói a fé na humanidade. Mata a esperança. É horrível. E, ainda assim, é necessário sentir, porque é real. Tá acontecendo agora. É um sentimento ruim, mas que eu me sinto na obrigação de cultivar em mim, porque é a única forma de apoiar aquelas pessoas: falar sobre a Palestina, não deixar que esse massacre seja ignorado. E então eu li esse livro. Ele não apagou a minha raiva, mas a transformou um pouquinho. Não é mais uma raiva cega, que só me fazia querer ouvir notícias de destruição e retaliações. Essa leitura é uma história dolorida, cheia de pequenas e grandes tragédias, mas, ainda assim, com um tom de esperança. Uma vontade imensa de que as coisas funcionem, de que haja paz de alguma forma. De que Jerusalém, uma cidade tão importante para três povos tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão parecidos, possa um dia ser compartilhada sem desconfiança, sem rancor, sem tanques e pedras. Esse livro me fez desejar muito que a filha adolescente de um general do exército israelense pudesse realmente ser amiga de uma militante adolescente da FPLP, como Lisa e Miral são. Ainda assim, só consigo ter uma esperança descrente. Esse livro foi publicado em 2004, quando os Acordos de Oslo ainda eram recentes e havia otimismo. Mas agora, em 2025? Com mais de 60 mil palestinos mortos em dois anos? Com ocupação, assassinatos, brutalidade e fome sistemática? Com a extrema direita sequestrando o que poderia restar de sensatez na sociedade israelense...? Se já houve tanto otimismo e o resultado foi este, o que resta de esperança agora? Mesmo assim, esse livro me impactou demais. Quando ainda estava na metade da leitura, já sabia que entraria para minha lista de livros favoritos da vida. Rula Jebreal consegue impactar profundamente com um texto simples. Os capítulos são curtos, mas todos muito importantes. Os personagens são lindos e complexos. Khaldun, o menino que é soldado e poeta, cuja vida é lutar por um país que não existe, mas é dele. Hani, o líder que consegue enxergar além do ódio, que fala sobre diplomacia e tenta muito se fazer ouvir. Fatima, a enfermeira que percebe que seu propósito não é mais curar corpos feridos, mas evitar que se machuquem. Jamal, o homem bom e tranquilo, o melhor pai do mundo, que ensina às filhas como os três povos são parecidos e como é triste e inútil que lutem. Nadia, Hind, Miral... Esse livro me desmontou e remontou diferente. Agora eu carrego um pouquinho de Miral, de Hani, de Khaldun e de Jamal comigo. Enfim, leiam esse livro. Se informem. Continuem falando sobre a Palestina. Não deixem que as pessoas se esqueçam da brutalidade e da injustiça que tá acontecendo agora, neste minuto. "Esta não é uma guerra entre dois exércitos normais; é uma forma de protesto instintivo, simplório e desesperado, que, em um dos paradoxos mais grotescos da história, parece a revolta dos judeus no gueto de Varsóvia (...). As pedras arremessadas por jovens palestinos não tiveram nenhum efeito militar, mas provavelmente conseguiram causar algumas rachaduras na consciência mundial".
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