Formada por 13 favelas com mais de 70 mil habitantes, o Complexo do Alemão tem uma história marcada por violência, exclusão e desconhecimento. Não faz muito tempo, poucas eram as pessoas, além dos moradores, a subirem o morro. Então quase nada se sabia sobre quem vivia lá. O cenário hoje não é o mesmo e todas as atenções estão voltadas para um mundo até então reduzido apenas aos limites da favela. Exemplo disso é o livro A Voz do Alemão, escrito em parceria pela jornalista Sabrina Abreu e pelo jovem Rene Silva, morador do Alemão. Na obra, Sabrina e Rene recuperam a história do Complexo ao conta-la por meio do jornal Voz da Comunidade, criado por Rene aos 11 anos de idade. Para isso, trazem uma grande diversidade de fontes que, somada à rica pesquisa, tornam a obra um retrato real e plural da comunidade. Conhecido como “Rene do Voz”, o jovem criou o jornal em 2005 para falar sobre os problemas e necessidades dos moradores do Morro do Adeus, local onde vivia com os avós, a mãe e os irmãos. O que começou com uma folha de sulfite dobrada em quatro partes tomou força por falar daqueles que até então eram invisíveis diante da grande violência em que viviam. “O Complexo só costumava ser citado quando o conteúdo se referia às vendas de drogas e às guerras do tráfico” afirma Helcimar Lopes, pesquisador e supervisor do Instituto Raízes em Movimento, uma ONG sediada no Morro do Alemão. A notoriedade de Rene dentro do Complexo cresceu e se firmou, porém, foi apenas cinco anos depois, no dia 27 de novembro de 2010, com um post no Twitter que a fama o alcançou. Nele, Rene falava sobre a movimentação dos traficantes um dia antes da ocupação policial que foi notícia no mundo todo. “No dia seguinte, repórteres de cinco jornais diferentes esperavam na rua para entrevistar Rene”. Com a fama, veio a oportunidade de aumentar os projetos sociais. Além do jornal, Rene também havia criado todo um cronograma de ações aproveitando datas comemorativas como o Natal e a Páscoa. “Eles tiveram um salto de qualidade e alcance depois que o jornal comunitário ganhou mais visibilidade – e que Rene teve acesso a quem poderia ajudá-lo a conseguir mais doações e atrações”. Com o apoio de famosos como Preta Gil e a banda NX Zero, as arrecadações e doações saltaram de volume.
A Voz do Alemão -
Rene Silva, Sabrina Abreu
A VOZ DO ALEMÃO – Sabrina Abreu e Rene Silva.
Parceria com a editora nVersos, vem sempre nos apresentando obras maravilhosas. A Voz do Alemão de inicio me pareceu uma biografia que iria narrar apenas à vida dos morados do Complexo do Alemão. Mas me deparei com uma aventura magnífica sobre fatos, eventos e histórias da periferia que chegou a ser a mais temida do Brasil. O livro nos mostra a história de vida das pessoas que ali viviam. O medo, a coragem a luta pela sobrevivência. Nosso personagem guia, que nos mostra tudo o que se desenvolve ali, é Rene Silva. Rene sempre foi um garoto inteligente e totalmente voltado para o jornalismo. Na escola participou de um jornal interno intitulado “Voz da Comunidade”. Encantou-se tanto pela área, que conseguiu levá-lo para o morro do Alemão. Utilizava as redes sociais para mostrar ao mundo tudo o que acontecia ali dentro. Foi quando aconteceu a pacificação do complexo do alemão, que Rene mostrou ao mundo todo o seu talento. Com a Judá de seus amigos, passou a levar as noticias e acontecimentos do Complexo do alemão, para todos os cantos do Rio de Janeiro. Deixou as pessoas cientes do que estavam enfrentando ali em cima. Tudo melhorou sim com a pacificação. O fato de os traficantes não serem os personagens principais daquele local, os lideres que botam medo em todos da comunidade. Agora o povo passou a ter voz ali dentro. Claro que existiam sim as diferenças, as lutas e batalhas diárias. Mas estavam mais fortes, mais confiantes. A Voz do Alemão nos mostra a vida real dentro do Complexo do Alemão. Nos mostra que não são todos traficantes ali. Apresenta-nos os personagens da vida real. Rene conseguiu levar alegria para aquela comunidade. Doações que faziam as datas especiais serem únicas para as crianças. A obra nos mostra a diferença após a pacificação. Apresenta-nos tudo o que ainda deve ser melhorado, mas as mudanças são gritantes. O medo já não é parte constante dos dias daquelas pessoas. As atitudes mudaram, as oportunidades apareceram. Existem seres valiosíssimos, que não tinham oportunidade de mostrar o seu talento. O preconceito sempre foi voltado para aquelas pessoas. Um preconceito absurdo, que generalizava toda uma comunidade, sem nem ao menos conhecê-los individualmente. A história de um jovem, negro e favelado que deixou de ser invisível e passou a ser protagonista de uma nova história, em que o mocinho não morre e o final é feliz. Casa de Livro Recomenda. Titulo: A Voz do Alemão. Autores: Sabrina Abreu e Rene Silva Ano: 2013 Páginas: 198 Editora: nVersos Boa Leitura. Casa de Livro. Karina Belo. Lançar um portal era um desejo crescente do garoto. Os pedidos para que isso ocorresse se multiplicavam, vindos de internautas do Brasil inteiro, principalmente dos 50 mil seguidores que ele acumulava no twitter seis meses após a ocupação. O tráfico era um impeditivo. Sentia que não seria boa ideia tirar fotos das ruas livremente, para não correr o risco de fotografar alguém que não queria aparecer. Parte do controle autoritário sobre as camadas socialmente desfavorecidas não se dá apenas pela prática da violência, mas, também, pela tentativa de infantilizá-las. Esse tipo de comportamento se desdobra em ações que têm como objetivo manter as classes populares sob controle – ou domesticadas, como se faz com as crianças ou animais - , às quais é determinado até que devem ouvir ou como devem se divertir. Com sua câmera, o adolescente estava, ao lado de Bruno, posicionado para registrar a grande queima de fogos no alto do morro, perto da arvore erguida ali por iniciativa de um banco, pela terceira vez consecutiva. Com o barulho bem alto lá fora e entre os abraços de todo mundo que participava da festa, Rene tirou um minuto para tuitar. Em seu iPhone, ele escreveu: “Vejo moradores felizes hoje, pelo terceiro ano de réveillon sem tiros!”.
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