Pão e Chocolate -

    Clara de Góes

    GARAMOND
    2002
    76 páginas
    2h 32m
    ISBN-10: 8586435724
    Português Brasileiro

    "Pão e Chocolate" é o sexto livro de poesia da psicanalista, escritora e dramaturga Clara de Góes. sO título da obra é o mesmo de um antigo filme italiano sobre a imigração italiana na Suíça, cujo sentido mais dolorido, explica Heloísa Buarque de Hollanda na orelha do livro, "era a perspectiva distanciada do olhar moreno, pobre e estrangeiro sobre o brilho da afluência de um dos países mais 'civilizados' da Europa. Um olhar de excluídos carregado de admiração, de encantamento, mas que por isso mesmo reforça raízes, fixa historicamente os sujeitos deste olhar". Os poemas se constróem a partir deste olhar, no contraponto entre morte e vida, perda e continuidade, vazio e reconstrução. A morte da avó é traduzida na primeira parte do livro numa "mortalha de palavras/e areias". A poesia é árida, seca e dolorida. Escrever é, de algum modo, perder e perder-se: "Tenho gosto de fim". A segunda parte do livro traduz em versos a busca pelo recomeço, a poesia como modo de reconstruir o mundo e o sujeito, neste caso, marcadamente feminino. No entanto, se a temática de Clara - e seu foco no feminino - evoca em alguns momentos o universo de uma Adélia Prado, sua escritura econômica, direta, por vezes pura equação matemática, joga com a precisão, com o sentido do universal. Dialoga, assim, com originalidade e confiança, com João Cabral, Drummond e Bandeira. As relações complexas entre gozo e escrita, que entrelaçam a prática cotidiana de Clara de Góes como psicanalista e sua aproximação intelectual a Teresa de Ávila, objeto de sua tese de Doutorado, são onipresentes nesta obra. Leitores atentos encontrarão na poesia de Clara o feixe de oposições claro-escuro, morte-vida, ignorância-sabedoria, dito-calado, palavra-silêncio que dialogam com o Barroco de Teresa, com a Psicanálise. O próprio título evoca a tensão e a contradição como elementos indissociados da vida e da escritura. Dito o suficiente, melhor é apreciar, com sabedoria, o pão e o chocolate. É uma poesia densa, bela, desassossegada, que se superexpõe diante da morte e da paixão, que não hesita em revelar uma sexualidade rasgada, emocionada, que se torna progressiva e paradoxalmente singular e coletiva. E sentir que, como diz Moacy Cirne no "Prefácio", "emblematicamente, Pão e chocolate é um título que aponta para o lugar do não-dito. E neste não-dito está o dito do fazer poético da luminosidade rara e clara de Clara. Com suas mortes, suas perdas e suas fantasias."

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