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    D. João I - 1357 * 1433

    Maria Helena da Cruz Coelho

    Temas e Debates
    2008
    500 páginas
    16h 40m
    ISBN-1: 0
    Português
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    Pedro Guimarães picture
    Pedro Guimarães05/03/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Maria Helena da Cruz Coelho, historiadora de renome no estudo da Idade Média portuguesa, apresenta em Dom João I uma obra que transcende a simples biografia, mergulhando nas complexidades políticas, sociais e culturais de um dos reinados mais decisivos para a formação de Portugal como nação. Integrante da coleção Reis de Portugal, o livro alia rigor acadêmico a uma narrativa fluida, direcionada tanto a especialistas quanto ao público leigo interessado em compreender as raízes da identidade portuguesa. A autora não se limita a descrever a trajetória do monarca; constrói um painel multifacetado que contextualiza sua ascensão ao trono, seu governo e seu legado, inserindo-o no cenário turbulento da Europa medieval. Nascido como filho ilegítimo de D. Pedro I, D. João I emerge na história como figura central para superar a crise dinástica de 1383/1385, que ameaçava a independência portuguesa frente às ambições de Castela. Cruz Coelho dedica atenção especial a esse período conturbado, analisando as alianças políticas, os conflitos bélicos com destaque para a Batalha de Aljubarrota (1385) e as estratégias de legitimação que consolidaram o Mestre de Avis como rei. A obra demonstra como sua vitória não foi apenas militar, mas também simbólica: ao associar-se às cortes e às elites urbanas, D. João I reinventou a monarquia, equilibrando centralização do poder e pactos com a nobreza e o clero. A autora explora ainda a construção da imagem do Rei de Boa Memória, destacando o papel das crônicas de Fernão Lopes na perpetuação de uma narrativa que glorificava o monarca como unificador e defensor da pátria. Um dos maiores méritos do livro reside na profundidade da pesquisa histórica. Cruz Coelho utiliza fontes primárias, como documentos régios e crônicas medievais, e dialoga com a historiografia contemporânea, oferecendo análises que evitam anacronismos. A contextualização internacional é particularmente notável: a autora não trata Portugal como entidade isolada, mas mostra como eventos como o Cisma do Ocidente e a Guerra dos Cem Anos influenciaram as decisões políticas de D. João I. O Tratado de Windsor (1386), que selou a aliança com a Inglaterra, é examinado não apenas como estratégia militar, mas como parte de uma diplomacia visionária que pavimentou o caminho para a futura expansão ultramarina. A escrita clara e organizada, enriquecida por mapas e genealogias, facilita a compreensão mesmo de leitores menos familiarizados com o período, sem sacrificar o rigor acadêmico. Entretanto, a obra não está isenta de lacunas. Enquanto a crise de 1383–1385 e a consolidação interna do poder recebem tratamento minucioso, temas como a expansão marítima simbolizada pela conquista de Ceuta em 1415 são abordados de forma mais breve. Essa opção talvez reflita o foco da autora na estabilização do reino, mas deixa em aberto questões sobre como o reinado de D. João I prenunciou o imperialismo português. Além disso, embora Cruz Coelho discuta a fabricação da imagem régia através das crônicas, há pouca problematização crítica sobre os mitos nacionalistas que posteriormente se apropriaram dessa figura histórica. Num momento em que a historiografia debate o uso político do passado, uma reflexão mais incisiva sobre como D. João I foi instrumentalizado pela narrativa da nação heroica enriqueceria a análise. Apesar dessas limitações, o livro destaca-se como síntese magistral de um período crucial. Cruz Coelho demonstra que a estabilidade do reinado não foi obra do acaso, mas fruto de uma combinação de pragmatismo político, sorte histórica como a morte prematura de rivais e uma habilidade ímpar em negociar com as forças sociais do reino. A autora também não romantiza seu protagonista: reconhece as contradições de um governante que, embora promovesse reformas administrativas, mantinha práticas senhoriais tradicionais. Essa abordagem equilibrada revela as nuances de um período de transição, em que Portugal começava a esboçar os traços da modernidade sem romper completamente com as estruturas medievais. Para o público geral, Dom João I oferece uma narrativa envolvente, embora a densidade de informações exija atenção constante. Estudantes e pesquisadores, por outro lado, encontrarão na bibliografia comentada e na exploração detalhada das fontes um valioso ponto de partida para investigações futuras. A obra consolida-se, assim, como referência indispensável para compreender não apenas a figura do monarca, mas as dinâmicas de poder, cultura e memória que moldaram Portugal no crepúsculo da Idade Média. Maria Helena da Cruz Coelho confirma, mais uma vez, por que é uma das vozes mais respeitadas na historiografia portuguesa, conciliando erudição e clareza em um texto que honra a complexidade da história.

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