A grande maioria dos leitores deste livro, muito provavelmente, tece algum parente, amigo ou conhecido que, durante os difíceis anos do regime militar (1964/84), pagou com a própria vida pela ousadia de acreditar na liberdade de expressão, defesa da democracia ou tentativa de organização da sociedade civil. Em alguns casos, mesmo quando a proximidade com as vítimas não era de parentesco, amizade ou adesão política, a censura da informação conseguia silenciar as poucas vozes dissonantes da oficialidade verde-oliva. Tão ou mais cruel é ver que, hoje, alguns dos ex-aliados do regime militar estão por ai, na ativa e, em certos casos, mesmo integrando as bases de aliança de um governo eleito com o voto popular. Ironias do destino, traições da história... por parte daqueles que já parecem esquecer também as vítimas da perseguição, tortura e silêncio forçado. Trazer ao debate público um assunto que não pode ser apagado da memória popular é um desfio que poucos arriscam num contexto onde boa parte da mídia brasileira parece estar seduzida pelo governismo da adesão consentida. Mas, para nossa sorte e alívio, nem todos os profissionais do jornalismo se alinha às vozes oficiais, que hoje silenciam diante de arquivos lacrados pelo sangue de milhares de brasileiros, vítimas da perversidade política que ainda marca a história recente deste País. O repórter Luis Fernando Assunção, habituado ao esforço cotidiano de fazer do jornalismo um espaço de expressão pública, cidadania e voltado aos interesses da grande maioria da população, ousou vasculhar a memória dos parentes, amigos ou companheiros de algumas das incontáveis vítimas do que ficou denominado neste Brasil da desigualdade como “desaparecido políticos” pela ditadura militar. Na real, sempre se soube – e não há com ignorar – que essas pessoas nunca forma “desparecidas”, mas foram barbaramente silenciados pela força física e autoritária de governos que, hoje, preferem silenciar discursivamente diante de uma memória que não quer, e nem pode, calar. Luis Fernando Assunção recupera – neste livro – um dos grandes desafios do jornalismo contemporâneo: produzir uma informação plural, historicamente contextualizada e livre das amarras do conformismo generalizado que ainda impera neste País. É, enfim, uma legítima e digna ousadia da reportagem! Até porque as matérias que integram o livro preenchem uma lacuna na história catarinense contemporânea. Sérgio Luiz Gadini, Jornalista, professor universitário – primeira orelha do livro Assassinados pela Ditadura, Insular 2004.
