Parte I:
Com tantos militares na árvore genealógica (tio-avô general e ministro da Guerra, tio capitão e o cargo honorífico de brigadeiro, pai e avô generais), Fernando Henrique tentou na década de 1940, por duas vezes, entrar na Escola Militar. Levou duas bombas. Também arriscou a segunda carreira do pai, que além de militar, era advogado. Então, prestou vestibular para a Faculdade de Direito. Nova bomba. O pai, general Leônidas Cardoso, ficou desgostoso.
Ele nunca vai dar para nada, desabafou com o colega de farda Jocelyn Brasil, oficial da aeronáutica, amigo da família do autor deste livro.
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O sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos, com sua verve peculiar, no livro O Príncipe da Moeda, de 1997, anota:
Esta notoriedade intelectual merece ser objeto de uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito], porque seus livros não são mais lidos atualmente, o que causa sem dúvida espanto, pois trata-se de notoriedade intelectual baseada menos nas qualidades intrínsecas do texto (ou do pensamento) do que no marketing do intelectual-perseguido-pela ditadura.
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No momento em que todos os observadores políticos percebem que a luz de Fernando Henrique emana sinais presidenciais, olhos e ouvidos se aguçam nos repórteres mais atilados. Alguns miram na fazenda de FHC e Sérgio Motta e acham uma discrepância entre o preço real e aquele declarado no Imposto de Renda: para a Receita Federal, é uma fazendinha de não mais que US$ 2 mil; mas o valor de mercado bate nos US$ 400 mil.
Um repórter faz a matéria e envia para a matriz de seu jornal em São Paulo. Apenas dois ou três leitores ficaram informados de seu conteúdo, antes que ela jazesse na gaveta do editor. Os leitores (e eleitores) da publicação ficaram sem saber que, desde 1988, Fernando Henrique e Sérgio Motta dividiam a propriedade no distrito de Serra Bonita, município de Buritis, Minas Gerais, a duas horas e meia de viagem, por terra, da capital federal. Terras boas para o cultivo de arroz.
Algumas publicações estavam inclusive saindo em defesa preventiva de FHC. Veja e O Globo, mesmo que nada tivesse sido publicado contra ele, optaram por favorecê-lo com notas de apoio explícito.
Os magnatas da mídia, portanto, esqueceram a fazendola de 1.046 hectares, equivalente a um décimo da área urbana de São Paulo, com valor declarado ao Fisco duzentas vezes menor que o valor verdadeiro.
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https://listadelivros-doney.blogspot.com/2014/09/o-principe-da-privataria-parte-i.html
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Parte II:
Antônio Carlos Magalhães (ACM), era médico, empresário e político baiano, déspota esclarecido. Mandava na Bahia desde a ditadura (1964-1985). Mas cercava-se de bons técnicos e paparicava artistas. Apelidado Toninho Malvadeza, rompeu com o esquema militar que impunha Maluf em 1985 como presidente eleito pelo Colégio Eleitoral. Em campanha, hospedado num hotel em Salvador, Maluf teve de subir centenas de degraus até seu apartamento: ACM havia cortado a energia no bairro. Nos anos 1950, na Câmara Federal, o alagoano Tenório Cavalcanti acusa o presidente do Banco do Brasil, baiano Clemente Mariani, de desviar verbas. ACM aparteia dizendo que Tenório era ladrão. O alagoano saca o revólver e faz ACM tremer: Atira! Tenório ri, recolhe o revólver e diz: Só mato homem.
Costurou a aliança PFL-PSDB que elegeu FHC. O jornalista Sebastião Nery dizia que ACM era o presidente noturno e FHC, o primeiro-ministro diurno. O atrito entre os dois precipitou o Proer, programa de salvação do sistema financeiro, em 1995. O banco baiano Econômico entra em crise (mandou para fora mais de US$ 300 milhões e não honrou cheque administrativo de R$ 100 milhões). FHC ia intervir e ACM com sua tropilha ruma para o Alvorada. FHC recua e surge o Proer, buraco negro que em 16 meses já havia consumido mais de US$ 40 bilhões.
Moral: diante de ACM, FHC não era Itamar.
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Em 1998, Pedro Malan preparou discurso ininteligível para FHC pronunciar como candidato à reeleição, comprometendo-se a cumprir exigências do FMI que contrariavam a promessa de acabar com o desemprego. Bendito grampo do BNDES: numa gravação, vemos Malan pedir a Lara Resende para submeter o texto à aprovação de Stanley Fisher, mandachuva do FMI.
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Parte III:
O neologismo privataria nasceu na cabeça do jornalista ítalo-brasileiro mais ítalo que brasileiro Elio Gaspari. Não está nos dicionários, mas já merecia ter entrado. Mistura privatização com pirataria e se refere ao esquema adotado na Era FHC para entregar, em mãos privadas, empresas estatais ou seja, do governo, por extensão do povo brasileiro; e isto, a pulso, reprimindo manifestantes contrários; cooptando a mídia em peso; vendendo empresa por preço menor do que o dinheiro que ela tinha em caixa; pondo dinheiro do BNDES na mão do comprador, ou seja, pagando para o estrangeiro comprar; com indícios e mesmo provas de que rolaram desvios na casa dos bilhões, e de que muita gente ficou com as chaves de cofres em paraísos fiscais que guardam fortunas.
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Nos diálogos grampeados, nota-se a promiscuidade entre público e privado, com Pérsio Arida tratando de negócios com Lara Resende Pérsio Arida do banco privado Opportunity e Lara Resende do estatal BNDES. O ministro Mendonça de Barros quer convencer Jair Bilachi, presidente da Previ, a pôr dinheiro no consórcio do Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. O fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil não é pouca coisa: chegaria em 2011 ao 24º lugar entre os fundos de pensão do mundo, com patrimônio de US$ 92 bilhões. E um diálogo confirma a promiscuidade; Mendonça diz a Jair:
Estamos aqui eu, André, Pérsio, Pio... este último é Pio Borges, vice-presidente do BNDES.
Tudo em casa. Mendonça de Barros, em telefonema para Ricardo Sérgio, do Banco do Brasil, diz que o Opportunity, para participar do leilão das teles, está com um problema de fiança. Pergunta:
Não dá para o Banco do Brasil dar?
Responde Ricardo Sérgio rápido no gatilho:
Acabei de dar.
O consórcio de Daniel Dantas teve o aporte de R$ 874 milhões. Ricardo Sérgio então acrescenta frases reveladoras:
Nós estamos no limite da nossa irresponsabilidade... Na hora que der merda, estamos juntos desde o início.
Na verdade, mesmo não estando acima do bem e do mal, podem contar com a mídia para assim sentir-se. Estamos com o quadro praticamente fechado, diz Mendonça de Barros quando FHC lhe telefona para saber como andam os preparativos para o leilão das teles. E comentam o tom elogioso com que os meios de comunicação tratam as privatizações. Diz Mendonça:
A imprensa está muito favorável, com editoriais.
Está até demais, né?, responde FHC rindo, estão exagerando até.
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Serra e FHC, não digo que são inimigos, mas adversários sempre foram. FHC não gosta do Serra e vice-versa. Mas ambos gostam do planalto paulista, do neoliberalismo, ambos desgostam do povo brasileiro. (Mauro Santayana)
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