Tive várias leituras produtivas no ano passado e algumas fogem completamente do estilo ao qual estou habituado. Antes de desanimar, encaro como um desafio ler algo que não tenho hábito, ou que possua uma temática tão diferente dos gêneros que gosto. Dias melhores virão, da autora Jennifer Weiner, publicado pela Editora Novo Conceito, certamente foi uma delas. Antes de mais nada, devo adiantar: não é um livro ruim. A leitura segue um pouco parada no começo, mas em certa parte ele engrena e você consegue terminar torcendo pelo desfecho da nossa protagonista.
Ela se chama Ruth, e quando pequena, sofreu um grave acidente de carro, tendo perdido seus pais e sofrido sérios machucados que desfiguraram seu corpo e rosto. Após uma série de cirurgias e sendo cuidada pela mãe de sua mãe, Ruth cresce sem maiores problemas do que os que já tem. Sua avó cuidou dela com muito carinho, e hoje tem uma neta que escreve roteiros para televisão. A história do livro gira em torno de uma contratação para filmar um piloto para TV, em que Ruth conta a história de uma mulher comum, que foi criada pela avó, numa espécie de comédia, que serviria para levar ao público sua própria história e que ajudasse as pessoas que se sentem incapazes de que elas podem subir na vida, se identificando com sua protagonista. Quando recebe a ligação para filmar o episódio, Ruth fica muito feliz. Mas passados alguns momentos, ela começa a perceber que aquele projeto não será em nada parecido ao que ela esperava realizar.
Paralelamente com as desventuras de Ruth no meio profissional, ela conta sobre seus "poucos" casos amorosos que não deram certo e ela acredita que tudo se deve a sua aparência "monstruosa". Sua avó arruma um namorado, e planejam um casamento. Ruth se sente abandonada, pois terá que viver sozinha quando sua avó se mudar para casa do futuro marido. Seu namorado acaba o namoro com ela. Ela havia tido uma paixonite no meio do trabalho e traumatizada, teme estar se apaixonando por mais um colega de profissão, um produtor boa-pinta que vive numa cadeira de rodas.
Quando o elenco é escalado para gravar o piloto, as escolhas de Ruth sofrem "modificações". A história terá que ser reescrita e adaptada em alguns trechos, e o que acontece é que o roteiro inicial é praticamente anulado, substituído por outro que foge em muito na proposta dada por Ruth. E isso a decepciona. A imagem da avó fica caricaturada demais, e ela teme que ela se magoe em ver-se tão vulgarmente retratada. Os atores que ela queria que atuassem foram dispensados, pois não tem uma imagem "muito conhecida". Os que foram escolhidos, atores de renome em Hollywood, vão mostrando as facetas artificiais e arrogantes que Hollywood tenta esconder. Pessoas vazias, sem conteúdo. Apenas a imagem que a mídia cria sobre eles é o importante. Ruth, que desejava emplacar um programa sobre o cotidiano de pessoas comuns que vencem na vida, tem que se contentar com o falso glamour de "estrelas vendidas". A premissa é boa e instigante, pois Jennifer cria uma obra bastante atraente para o seu público alvo. E o livro tem uma narrativa até competente sobre a temática. A escrita de Weiner é cativante, embora cadenciado. Achei a experiência válida, mas acredito que o livro seja para um público que goste desse tipo de história, caso contrário poderá achar um livro ruim. Outro fator que achei interessante no livro é que a autora entremeia o lado profissional de Ruth com suas neuras e confusões de uma mulher "defeituosa" caminhando para os 30 anos, e tentando se estabilizar. Funciona também como uma crítica a mídia televisiva, que trata seus "funcionários" de forma descartável. Para alcançar o status que o público quer ver na tela, o ator precisa às vezes ser apenas uma marionete bajuladora, ou seguir os padrões impostos pela TV. Nada é o que parece, e isso se reflete principalmente na parte burocrática, nos bastidores da situação, em que empresários e produtores se engalfinham a fim de vender seu produto de maneira unicamente profissional, mesmo que para isso, a qualidade do roteiro seja péssima. A beleza é o ponto chave, se você fugir do padrão hollywoodiano, você não vai muito longe. Imaginem a situação de Ruth, sendo tratada como um "monstro" por causa das cicatrizes enormes que estampam um dos lados de seu rosto. Dá para sentir que Ruth passa por maus bocados até seus dias melhorarem. O final do livro é o ápice da obra, pois deixa o leitor satisfeito, embora seja um tanto diferente.
Em resumo, Dias Melhores Virão é uma leitura válida, caso você não espere algo mirabolante ou extraordinário. É possível retirar alguma lição da história, leia de forma despretensiosa para não se frustrar com o livro. Quem sabe você consiga até se identificar com a própria Ruth Saunders. Espero que tenham curtido a resenha. Até a próxima!