Carolina
A sinopse do livro, grosso modo, é a seguinte: Carolina, uma jovem pobre de 18 ou 19 anos na década de 1890, sai de uma cidadezinha interiorana, e vai para Chicago, uma metrópole em ascensão, com seus já 500 mil habitantes. (Só para comparar, a capital brasileira da época, Rio de Janeiro, tinha 522 mil, mas era a capital de um país, enquanto Chicago era só mais uma das grandes cidades americanas e, Nova York, já tinha mais de 3 milhões de habitantes!). Carolina se hospeda na casa de sua irmã, uma mulher casada com um homem sovina. Ela tem que se arranjar, com trabalhos arrastados que pagam miseravelmente, mal dando para o aluguel. Mulher sensível, com 'alma de artista, sem conseguir se adaptar a essa realidade', logo abandona a casa da irmã, pretendendo voltar à cidadezinha natal, quando se envolve com dois homens; ambos, distintos, de classe média e quarentões. Um deles, Mr. Drouet, representante comercial, um 'bon vivant' que lhe promete casamento; o outro, Mr. Hurstwood, gerente de um badalado bar frequentado pela elite provinciana, casado e com dois filhos, que lhe promete um relacionamento duradouro e protetor. Ela se envolve com Drouet, que lhe aluga um apartamento, mas é o outro homem, Mr. Hurstwood que a encanta, pelas aparências sociais e pelo status que ele possui na sociedade. Ela abandona Mr. Drouet a quem, comparado ao outro, parece-lhe fútil, e foge com Mr. Hurstwood - após este roubar 10 mil dólares de seus patrões - inicialmente para Montreal e, depois, para Nova York, cidade que, dada a sua imensidão, não poderia ser encontrado pelos patrões e pela polícia. Carolina não sabe que ele é casado e menos ainda do roubo, um ‘ato heroico’ de um romântico apaixonado, no contexto do romance. Em Nova York, a vida conjugal com Mr. Hurstwood segue boa por uns três anos, até que a crise econômica e os maus negócios de Mr. Hurstwood - um bom administrador, mas um péssimo empreendedor - começam a afetar a relação. Carolina começa a sentir o peso e as agruras da vida conjugal, a ponto de ter que sustentar o homem com que se casou justamente com a intenção de ser sustentada por ele, e a viver como dona de casa até que, após muitas reviravoltas, ela, 'com alma de artista', torna-se uma atriz consagrada em Nova York e o abandona.
Não darei spoilers, mas o romance vai narrando, simultaneamente, a ascensão de Carolina e a queda de Mr. Hurstwood e como a ascensão de uns e queda de outros se entrelaçam, ainda que os sujeitos envolvidos não consigam ver tais conexões. A escrita do autor é ágil, e isso talvez se deva por ele ser jornalista de formação. Em 47 capítulos, curtos e/ou médios, lemos o livro como se estivéssemos a ler o caderno policial dos antigos jornais. A maioria dos leitores de hoje não tem ideia da importância e da influência que os jornais e os teatros, de drama e de óperas, tiveram até a primeira guerra mundial (1914-1918), quando o cinema e o rádio passam a se popularizar e a ter mais hegemonia, a ponto de, por causa deles, surgir novos conceitos nas ciências sociais, como 'cultura de massa' e 'indústria cultural'. Pense no papel dos jornais da época como as nossas inúmeras redes sociais virtuais de hoje: havia jornais para todos os tipos e todos os gostos, assim como há redes sociais para tudo e todos atualmente, desde o surgimento do smartphone em 2007. Pense que uma das maiores celebridades da época, era uma atriz de teatro chamada Sarah Bernhardt (1844-1923), e assim permaneceu até a velhice, algo difícil de acontecer hoje, devido ao culto da juventude, onde atores (atrizes principalmente) são descartados, mais por sua idade do que por seu talento. É neste universo que gira a trama do livro.
Uma qualidade do autor, assaz criativa, é como ele vai abandonando personagens à medida que a narrativa avança. Um autor convencional de sua época, ao construir um romance, pensa em vários personagens e tenta costurá-los todos no universo do romance (dizem os críticos que o escritor russo Dostoievski é o mestre de todos eles). O autor deste livro não faz isso. Ao contar a história de Carolina, as personagens têm importância apenas em determinada fase da vida da protagonista; quando surgem novas circunstâncias e novos relacionamentos, entram novos personagens e são apenas estes que interessam. Não pensamos muito nisso, mas é exatamente assim que acontece na vida real: quando somos adolescentes, amigos do colégio, da vizinhança, professores etc., têm grande influência sobre nós; quando nos tornamos adultos, estes são abandonados e, então, colegas de trabalho e parceiros afetivos tornam-se referências para nós até que, digamos, sejamos demitidos ou nos separamos de nosso parceiro(a), encontramos outro emprego e um novo parceiro(a) e estes começam a fazer parte de nossa biografia, enquanto aqueles vão ficando apenas na lembrança. Se a vida é assim, e se eu pretendo contar a biografia de alguém (de Carolina) porque tenho que amarrar todos os personagens do romance, do início ao fim, qual uma orquestra? Isso sempre foi um peso para muitos escritores, aliás, para a maioria, quando precisam encaixar e costurar todos os personagens na trama do romance. O autor de Carolina foge de tal convenção quando, sem remorso algum, vai deixando personagens para trás. Carolina é apresentada como Carolina Meeber (solteira e ingênua) no início do livro; torna-se Carolina Wheler (vivendo as agruras de casada); e termina como a grande atriz Carolina Madenda (solteira e madura). É interessante como pessoas que a conheceram na juventude (Mrs. Meeber), como Mr. Drouet, ao tentar reatar com ela mais tarde (Mrs. Madenda), não conseguem ter a mesma conexão de outrora. São tais mudanças que o autor consegue transmitir ao leitor.
Thedore Dreiser (1871-1945) é o escritor que colocou a literatura americana no século XX. Sem ele, não haveria Sinclair Lewis, William Faulkner, Ernst Heminguay, Arthur Miller e outros tantos que passaram a desconfiar do sonho americano. Pode-se dizer, sem exageros, que ele se tornou o Honoré de Balzac da América anglo-saxônica quando publicou Carolina (Sister Carrie, no original), escrito em 1899-1900. A publicação do livro, no entanto, teve muitas peripécias; só conseguiu publicá-lo fora do país, em Londres (em 1901), e sua edição definitiva nos EUA só veio a lume em 1917, dezoito anos depois de sua escrita, dada a recusa das editoras, como ele explica no prefácio. Os motivos da recusa é sua proposta em descrever 'a vida como ela é’'. Numa época em que a América idolatrava seu puritanismo religioso, sua democracia, sua liberdade e seu 'way of life', o escritor nos mostra que na América, na verdade, tudo gira em torno do dinheiro. Um exemplo:
"O verdadeiro significado do dinheiro ainda está para ser explicado e compreendido de forma popular. Quando todos os indivíduos perceberem por si mesmos que ele primariamente representa e deveria ser aceito apenas como um direito moral - que deveria ser dado em pagamento de energia honestamente despendida, e não como um privilégio usurpado - muitas das nossas inquietações sociais, religiosas e políticas terão desaparecido para sempre. Quanto a Carolina, sua compreensão do significado moral do dinheiro era a do povo e nada mais. A velha definição 'Dinheiro é uma coisa que todos os outros têm e eu preciso arranjar', teria expressado cabalmente o conceito que ela formava a respeito. Tinha ela então nas mãos um pouco dele: duas notas verdes maciais de dez dólares [cerca de US$ 800,00 em 2025] - e sentia-se imensamente confortável pelo fato de possuí-las. Era algo que, de per si, representava poder. Uma pessoa do seu feitio mental sentir-se-ia contente em ser atirada a uma ilha deserta com um maço de dinheiro, e somente uma fome prolongada lhe teria ensinado que em certos casos o dinheiro não tem valor. Mesmo assim, não teria tido noção alguma do valor relativo do dinheiro; sem dúvida ter-se-ia limitado a lastimar o fato de possuir tamanho poder sem poder usá-lo" (Capítulo VII - A sedução do material: a Beleza fala por si mesma).
O autor é um moralista, não no sentido pejorativo atual, mas à lá século XVIII europeu, da qual Voltaire é seu grande expoente. Ele descreve, sem julgar, as mazelas da sociedade, mas sua descrição, seu poder de observação, é tão arguto, que a descrição objetiva, por si mesma, incomoda. Ele apenas diz ao rei nu: '- Rei, vossa majestade está nua...', e isso basta para que o rei nu se zangue por alguém ousar acusá-lo de... estar nu! Olha outro exemplo, agora de como ele descreve um pequeno-burguês tentando ostentar sua riqueza:
"Hurstwood estava em pé, com o paletó aberto, os polegares nos bolsos. A luz feria-lhe as jóias e os anéis, fazendo-os ressaltar agradávelmente. Era a pintura do conforto requintado" (capítulo V, p. 54).
Só mesmo um grande escritor com um poder de observação acima da média é capaz de nos mostrar como um personagem (Mr. Hurstwood) tenta se exibir desse modo, fazendo a luz refletir em suas joias e anéis.
O impresso que tenho em mãos é da editora Globo, de 1946 (470 págs.), com tradução de Moacir Augusto. 'Sister Carrie', também foi traduzida como 'Sou o Pecado' (sic!) em 1971 (557 págs.), com tradução de Raul de Polillo. E há uma terceira edição, da Rio Gráfica, de 1987 (560 págs.), a mesma da editora Globo. A tradução está datada, antiquada para os padrões do século XXI, com alguns advérbios, adjetivos e fraseados em desuso - ninguém mais diz 'Folgo em conhecê-la' -, mas nada que impeça a sua leitura, embora uma nova tradução das obras de Theodore Dreiser fosse muito benvinda.