Lido entre 01 e 06 de junho de 2023.
A melhor coisa que li sobre Nelson Rodrigues (1912-1980) foi mesmo a biografia que Ruy Castro escreveu sobre ele, O Anjo Pornográfico (Companhia das Letras, 2007), que me levou à leitura de algumas de suas obras. Do próprio Nelson apreciei bastante A Cabra V@dia; (Companhia das Letras, 1995) e vários trechos deste Nelson Rodrigues Por Ele Mesmo (Nova Fronteira, 2012) como também de Não Se Pode Amar e Ser Feliz Ao Mesmo Tempo - O Consultório Sentimental de Nelson Rodrigues (Companhia das Letras, 2002).
Nunca vi nenhuma das peças que escreveu, embora tenha visto vários filmes adaptados a partir delas e o melhor de todos, sem dúvida, foi Toda Nudez Será Castigada (1973), direção de Arnaldo Jabor. Até gostaria de revê-lo um dia, ver se passou bem pela prova do tempo.
Quem nunca leu nada de Nelson, mas se interessa por conhecer um importante autor brasileiro do século passado, pode começar com este volume cujos textos foram organizados pela própria filha dele, Sonia Rodrigues, que dão uma boa amostra do pensamento e das realizações artísticas do pai em várias áreas da cultura brasileira além de seus palpites sobre política. Apesar de ser chamado de reacionário, dizia não ser um homem nem de direita nem de esquerda. Dizia que ser reacionário, prezar a liberdade, era a melhor maneira de não ser canalha num país como o Brasil.
Mas o pensamento de Nelson não era assim tão simples quando estou resumindo, claro, então talvez seja interessante tentar conhecê-lo através de algumas de suas frases mais conhecidas ou polêmicas. Eis algumas:
A grande, a perfeita solidão exige a companhia ideal.
A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.
Entre o público e uma obra de arte, quem tem razão é sempre a obra de arte.
Sou um obsoleto, um carcomido, porque coloco a questão da liberdade antes do problema do pão.
A nossa língua tem sido uma boa desculpa para os que a assassinam.
Ai do escritor que não usa, de vez em quando, um mínimo de cafonice.
A constante dos seres humanos é a burrice. Para um gênio há dez milhões de imbecis.
O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.
Eu só sei viver com minha língua e minha pátria. Sou um homem da minha rua.
Consciência social de brasileiro é medo da polícia.
Não sou um escritor unânime, porque a unanimidade é uma burrice.
O Brasil é um elefante geográfico. Falta-lhe, porém, um líder que o monte.
O socialismo ficará como um pesadelo humorístico da História.
A imparcialidade só merece a nossa gargalhada.
Concorde-se ou não com Nelson, passam-se momentos divertidos e de reflexão lendo o que ele escreveu ou como pensava. O que temos acima é apenas uma pálida amostra do que se pode encontrar nesse rico volume que, a seu modo, também é um retrato do Brasil do século passado, com várias mazelas que continuam vivas no presente.