Os Poemas Possíveis -

    José Saramago

    CAMINHO
    2012
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9789722123389
    Português Brasileiro

    «Este mundo não presta, venha outro. / Já por tempo de mais aqui andamos / A fingir de razões suficientes. / Sejamos cães do cão: sabemos tudo / De morder os mais fracos se mandamos, / E de lamber as mãos, se dependentes. Na primeira obra poética de José Saramago descobre-se uma poesia de liberdade, de fraternidade e de luta. Uma luta disfarçada, por dentro das palavras. Pelo interior labiríntico de respiração que habitam todos estes poemas, publicados pela primeira vez em 1966. Digamos que eram os «poemas possíveis» da altura, quando a censura espiava a alma dos escritores. E no entanto, as convicções profundas de Saramago já são bem visíveis em poemas como «Criação»: «Deus não existe ainda, nem sei quando / Sequer o esboço, a cor se afirmará / No desenho confuso da passagem / De gerações inúmeras nesta esfera. // Nenhum gesto se perde, nenhum traço, / Que o sentido da vida é este só: / Fazer da Terra um Deus que nos mereça, / E dar ao Universo o Deus que espera.»

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    Everton Vidal07/09/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A poesia desse livro de Samarago não tem aquela dimensão inovadora dos seus romances (ninguém é obrigado a ser revolucionário em tudo, rs), mas é interessante. Em termos de formas, ao contrário do romancista que rompe esquemas, o poeta transita mais entre padrões tradicionais (com poemas curtos de versos em sua maioria decassílabos). Com respeito à temática, é diversa, mas em linhas gerais problematiza o sofrimento humano sob várias nuances e é ideologicamente engajada. A terceira das cinco partes do livro foi a que mais gostei, se chama Mitologia e se centra no aspecto religioso da condição humana. Deus é um grande vazio (e isso poderia ser um elo com seus romances), um vazio que precisa ser substituído pela ação humana. Depois o livro se centra no amor e no erotismo, com interleituras interessantes na quarta parte . Os poemas que mais gostei: Taxidermia, ou poeticamente hipócrita. "Posso falar de morte enquanto vivo?" Epitáfio para Luís de Camões "Que sabemos de ti se só deixaste versos...?" Há-de haver "Há-de haver uma cor por descobrir" Salmo 136 "Têm os povos a música que merecem." Demissão "Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos" E o poema que talvez resuma o livro: Criação "Deus não existe ainda, nem sei quando Sequer o esboço, a cor se afirmará No desenho confuso da passagem De gerações inúmeras nesta esfera. Nenhum gesto se perde, nenhum traço. Que o sentido da vida é este só : Fazer da Terra um Deus que nos mereça, E dar ao Universo o Deus que espera." Comentário muito muito pessoal: Se aprende muito sobre Deus lendo Saramago, apesar do que possa parecer.

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