A Harpa de Ervas -

    Truman Capote

    Sextante Editora
    2011
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9789720071491
    Português Brasileiro

    O narrador e protagonista desta maravilhosa história, Collin Fenwick, é órfão e tem onze anos quando vai viver para a casa das duas irmãs Talbo. História emocionante de desadaptados, inspirada numa memória de infância, A harpa de ervas é o terceiro romance de Truman Capote, originalmente publicado em 1951.

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (2)Ver mais
    mpettrus picture
    mpettrus04/11/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O Simbolismo Alegórico da Alma Humana no Fim da Vida

    “Um ser humano que não sonha é como uma pessoa que não transpira: armazena uma porção de toxinas” Truman Capote na minha vida de leitor tem o doce cheiro do fim da infância e a agitação fogosa do começo da adolescência. Lembro-me até hoje quando li o seu famoso “Bonequinha de Luxo”. Lembro-me de assistido ao filme depois de ler sobre ele numa revista cujo conteúdo era somente de cinema (majoritariamente hollywoodiano): a nostálgica “SET - Cinema e Vídeo”. Nessa reportagem, também soube da existência desse cultuado livro. Li mais outras de suas histórias nos primeiros anos da minha adolescência e desde então nutro um carinho por ele. Não uma citação específica, não uma lembrança de um enredo (quantos livros que lemos e esquecemos, embora os amemos!), mas um gosto pela linguagem, pelo detalhe sempre permanece, apesar dos anos. Uma cócega especial, inexplicável, mágica, delicada. Um amor estudantil, nascido em algum lugar das estantes da biblioteca da Escola do Ensino Médio. Lembrei-me agora do toque nas páginas. Toque é doçura, verão, dia longo em que o sol queima os cabelos e os cabelos grudam na testa. Um sopro que o dia deixa na pele como um beijo - com promessa de voltar, claro. E agora, tantos anos depois, volto a reencontrar Capote através desse livro. O enredo é simples: o principal evento da história é a subida na árvore, como uma forma de protesto que Dolly implementa após uma briga com a irmã Verena. Verena ambiciona abrir uma fábrica para produzir um medicamento para hidropia, um remédio cuja receita somente Dolly conhece, em um negócio de grande escala. Esse episódio é o motim de toda a discórdia entre as duas irmãs Talbo. Lá na árvore, na casa acima do sicômoro, outros personagens se encontrarão, outras histórias se entrelaçarão, narradas pelo verdadeiro protagonista da história, o sobrinho de Dolly, cujos eventos representam um conto clássico de formação. Os personagens dessa história são incríveis. Capote dá vida a todos eles com uma excelência sem igual, tecendo informações sobre eles de maneira precisa, bem como nos revelando pequenos detalhes sobre aparência e caráter - bem-humorado, enigmático, bem-sucedido. Dessa maneira, foi possível vê-los como são multifacetados, especialmente os personagens centrais. Outro detalhe interessantíssimo aqui é que os heróis são pessoas maduras que a meu ver descobrirão tarde demais que estão perdendo na linha de chegada da vida uma parte significativa de si mesmo e que por isso não querem mais viver do jeito que estavam vivendo. Adorei a evolução que Capote impriu nas suas personagens. Por exemplo, Riley Henderson deixou-me uma primeira impressão muito desfavorável. Ele é descrito por Collin com uma mistura de inveja e admiração e pareceu-me inicialmente um egoísta, mas com o passar da narrativa percebi que há muito mais por trás de sua persona ‘má’ e ele realmente fisgou meu coração. ​O juiz desapontado com a própria vida também é excelentemente desenhado, o velho cavalheiro do sul apaixonado por Dolly de uma maneira encantadora e inocente é cativante. ​A própria Dolly, que pareceu-me muito limitada no início, acabou sendo bastante realista de uma maneira arrebatadora. Aliás, ela é sem dúvida a minha personagem favorita desse romance. Esta senhora idosa, um tanto meio fada, uma criatura tímida, me intrigou e, de certa forma, lembrou-me de outra figura feminina lida por mim há alguns anos antes de adentrar nessa rede social dos leitores, a inesquecível Lolly Willowes do romance homônimo de Sylvia Townsend Warner. Eu fiz uma relação entre as duas personagens, Dolly e Lolly, cuja as vidas pareciam limitadas nas suas mais diversas possibilidades porque eram mulheres, porque eram solteironas. Em ambos os romances, as duas personagens guardam a força e a magia de suas personalidades, de encontrar prazer e satisfação na vida que parece desprovida de tremores e cercada de monotonia. A qualidade da escrita de Capote é como se cada palavra jorrasse sangue. A linguagem é bem cuidada, lírica, às vezes melancólica às vezes irônica, evocativa de sabores, atmosferas, cheiros, vozes. É um livro com uma história extremamente doce, talvez porque se aprofunde em memórias íntimas do autor, evocando figuras femininas e lugares que fizeram parte de sua vida. É quase uma autoficção permeada de fantasias. Pelo que eu pude compreender da ideia central dessa história trata-se de um chamado para ser você mesmo, para não fingir, para não desempenhar papéis, para não mentir (antes de tudo para si mesmo), e apenas lutar para conseguir o direito de reivindicar um sentimento de felicidade completa. Existe aqui, ainda que sutilmente, uma forte alegoria para a luta entre conformidade e individualidade, e a importância de encontrar a própria voz. Capote faz oportunamente (super bem-vindo) o uso extensivo do simbolismo da natureza. ‘A harpa de ervas’ em si é o símbolo mais importante dessa história. Um trecho de grama indiana alta localizado abaixo do cemitério da cidade, a harpa serve como um refúgio para os protagonistas, que a usam como um lugar para escapar das pressões da sociedade e explorar suas próprias identidades. A harpa também é um símbolo do poder da natureza e da importância de se conectar com o mundo natural para encontrar significado e propósito na vida. Logo, na minha humilde conclusão, o romance é uma alegoria para a condição humana, com o simbolismo da harpa em si representando a alma humana. A harpa é feita de folhas de ervas, cada uma representando uma pessoa diferente e suas experiências. O romance explora a ideia de que estamos todos conectados e que nossas experiências moldam quem somos como indivíduos. O foco em diferentes tipos de relacionamentos entre os personagens é um dos pontos mais fortes desse romance, e foi trabalhado com tanta precisão que deixou-me maravilhado. A maneira como Capote detalha como seus personagens agem uns com os outros, e as pequenas gentilezas que eles realizam, foi pensado com um cuidado meticuloso. Fiquei impressionado com o quão bem o autor conhece seus personagens, e como eles foram capazes de ganhar vida diante dos meus olhos. As imagens que Capote cria são deslumbrantes, particularmente quando se relacionam com os protagonistas: 'O floco de neve do rosto de Dolly', e uma voz 'enrugando como papel de seda', criações maravilhosas desse talentoso autor. É uma história impressionante, que lança surpresas a cada curva. Até mesmo os personagens secundários que povoam a cidade dançam para a vida página após página, dando ao todo uma sensação incrivelmente vívida. É uma história sobre liberdade também. Liberdade de raça, de amor, de ação independente, de viajar, de fé e assim por diante. Também creio que essa é uma história sobre amar. Principalmente, sobre isso: amar. 🇺🇸👵🏽🌙🦉🔮🧺⌛️

    117 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.2 / 12
    • 5 estrelas50%
    • 4 estrelas33%
    • 3 estrelas17%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%