A Ilha Misteriosa (Coleção Histórias) -

    Júlio Verne

    Editorial Bruguera
    1969
    247 páginas
    8h 14m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Um balão cai perto de ilha desconhecida no Oceano Pacífico. Os cincos sobreviventes enfrentam os obstáculos naturais impostos pela ilha misteriosa, desde animais selvagens e temperaturas extremas a um navio repleto de piratas. Nessa história empolgante, com um final surpreendente, Verne combina aventura e pesquisa científica em uma narrativa clara e dinâmica, entremeada pelo humor, ironia e criatividade.

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    Sidney Danillo de Moraes Lopes picture
    Sidney Danillo de Moraes Lopes05/09/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    L'île Mystérieuse

    Em 1719, Daniel Defoe publicou seu famoso Robinson Crusoé, que relata a sobrevivência do náufrago que dá nome ao livro em uma ilha desconhecida. A obra se tornou tão antológica e gerou tantos “filhos” que foi cunhado o termo robinsonada para rotular todos os livros que relatam o isolamento de um ou mais personagens e sua sobrevivência. Talvez o mais famoso representante das robinsonadas seja A Ilha Misteriosa, livro publicado em 1874 por Jules Verne, escritor considerado por muitos como o pai da ficção científica. A história foi publicada inicialmente de forma seriada em uma revista francesa chamada Magasin d'Éducation et de Récréation, voltada ao público infantojuvenil, com conteúdo didático e histórias de aventura educativas. E esse detalhe diz muito sobre o livro: some-se o amor de Verne pelas robinsonadas à sua paixão e admiração pelas ciências, e o resultado será A Ilha Misteriosa. Essa é toda a informação de que o leitor precisa antes de embarcar nessa aventura emocionante. A premissa da história é simples: um grupo de cinco homens e um cachorro escapa de um cerco em plena Guerra de Secessão, utilizando um balão de observação. Após certo tempo de voo, uma tempestade destrói o balão, fazendo o grupo cair em uma ilha até então desconhecida. Privados de todos os seus pertences (ou quase todos), os náufragos usam todo o seu conhecimento para sobreviver na ilha — e, frequentemente, recebem ajuda de uma “mão misteriosa” nos momentos de maior dificuldade (incrivelmente parecido com o roteiro de Lost, não acham?). Os náufragos são: Nab, ex-escravo e leal seguidor de seu patrão; Gedeon Spilett, o repórter; Pencroff, o marinheiro, e seu filho adotivo, o jovem naturalista Harbert. Por último, deixo o protagonista: Cyrus Smith, engenheiro, patrão de Nab e líder incontestável do grupo — que em pouco tempo passa a se autodenominar “os colonos”. E claro, Top, o fiel cão de Cyrus e um dos mascotes da colônia. Um dos pontos que mais se destaca no livro é a incrível lealdade e admiração que o grupo nutre por Cyrus, profundo conhecedor das ciências. Todos os avanços conquistados na ilha devem-se ao seu vasto repertório de conhecimentos. Mas, ao longo da leitura, percebi que, acima de Cyrus em si, os colonos, o autor e — posteriormente — os leitores veneram, na verdade, o conhecimento. A ciência é a verdadeira protagonista, profundamente valorizada na escrita de Verne. O autor dedica páginas e mais páginas à descrição de espécimes vegetais, animais, processos físicos, químicos e matemáticos — mas sempre de forma que tudo sirva à história e ao aprendizado. Há quem reclame da quantidade de detalhes, mas, diferente de, por exemplo, Operação Cavalo de Troia, em que o excesso de minúcias pode atrapalhar o andamento da narrativa, aqui os detalhes encantam e constroem. Preciso destacar o que achei mais genial neste livro: a forma como Verne emula o progresso da civilização humana no microcosmo da Ilha Lincoln (como os colonos a batizam). O grupo chega à ilha apenas com as roupas do corpo, refugiando-se em cavernas naturais chamadas de “Chaminés”. Caçam, produzem fogo, evoluem para a agricultura, fabricam pólvora e nitroglicerina, constroem um elevador hidráulico e — pasmem! — um telégrafo, para unir dois pontos importantes da ilha, um deles a Granite House, residência oficial dos colonos. Ao longo da trama, acompanhamos em detalhes cada etapa do progresso dessa “mini-humanidade” na Ilha Lincoln, testemunhamos a prosperidade da colônia e o surgimento de novos personagens, como Ayrton, que se junta ao grupo, e a ameaça real de corsários que pretendem invadir a ilha. O final, de cortar o coração, fecha com maestria esse ciclo de conquista, engenho e esperança. Vemos que Jules é um escritor extraordinário quando percebemos que ele descreve muito bem a ilha e suas características, mas também é excelente nas cenas de ação: o conflito entre os colonos e os corsários é sensacional, muito empolgante! Vale destacar que este livro faz parte de um “Verneverso”, com referências fortíssimas a outras duas obras do autor: o personagem Ayrton apareceu anteriormente no livro Os Filhos do Capitão Grant e, no final, temos a revelação de que o benfeitor do grupo não era ninguém menos que o Capitão Nemo, de 20.000 Léguas Submarinas. Muito interessante esse crossover — por mais que existam alguns problemas de cronologia entre as histórias (que eu ignorei totalmente), integrar A Ilha Misteriosa com os outros dois livros é um toque de mestre. Lembrem-se: estamos em 1874, e Verne já usava o recurso do universo compartilhado! Quanto ao Capitão Nemo, ele rouba todos os holofotes com sua aparição. Temos um aprofundamento de sua história — como o príncipe indiano Dakkar se tornou o Capitão Nemo, construiu o Nautilus e passou a vagar pelos sete mares. Ouso dizer que este é o ápice do livro! Não posso finalizar esta resenha sem falar de dois problemas do livro, afinal, nada é perfeito, certo: 1. O primeiro é algo que, para mim, que estou acostumado a ler sci-fi antigo, é alvo frequente de críticas nas resenhas: a completa ausência de personagens femininas. Somente nas últimas páginas temos a menção a uma mulher — e ainda assim, mais como detalhe do que como personagem. 2. O segundo é o tratamento que Nab recebe na história. Este é um assunto delicado. Verne não é racista: Nab é respeitado pelo grupo, inclusive por Cyrus (sempre educado, polido e dedicado a todos). Para um livro de 1874, isso é um ponto positivo. Mas durante a leitura, fiquei incomodado com alguns aspectos sutis: ● Nab não participa de nenhuma decisão técnica relevante. Em certa cena, sua única fala é: “Esse é um assunto para o patrão.” ● Reparem nos nomes: o engenheiro e o repórter têm nome e sobrenome (Cyrus Smith e Gedeon Spilett); o jovem, o ex-corsário e o marinheiro são chamados apenas pelo primeiro nome (Harbert, Ayrton, Pencroff). E então temos Nab, Top (o cachorro) e Jup (o orangotango): os três únicos chamados apenas por apelidos. ● Em certo momento, Pencroff afirma que Jup “se comunicava melhor com Nab do que com qualquer outro”. Esses pontos podem parecer pequenos, mas em conjunto mostram que até um gênio progressista como Verne está limitado à sua época. Por fim, quero comentar algo que chamou minha atenção após o término da história: Verne insere uma dose de religiosidade na narrativa — algo que não costumo relacionar à ficção científica. Os colonos são tementes a Deus, celebram feriados sagrados, e no final há uma alusão ao conceito de “do pó viemos, ao pó voltaremos”. Os colonos chegam à ilha sem absolutamente nada e a deixam da mesma forma, após a erupção que destrói a Ilha Lincoln. Eles são resgatados no último instante e passam a viver uma vida feliz e confortável, graças às riquezas deixadas pelo Capitão Nemo. Ou seja: levando em conta minha leitura de que o livro simula a evolução da humanidade, entendo que a estada dos colonos na ilha representa a vida terrena, e a vida pós-resgate seria uma espécie de paraíso, conquistado por suas ações na Terra/Ilha Lincoln. Curioso como o pai do sci-fi conciliou fé e razão neste livro. Pensando agora, talvez Verne entendesse que a história da humanidade é intrinsecamente ligada à religião — e por isso fez questão de colocá-la ali. É uma possibilidade. TS: McDonald and Giles - McDonald and Giles (1970); Deep Purple - Made In Japan (1972) e Made in Europe (1976); Free - Fire and Water (1970).

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