Depois de ter lido "Botchan", outro livro de Natsume Soseki, com seu protagonista presunçoso e desbocado, foi divertido ver que aqui o autor construiu seu completo oposto. Logo vemos que Sanshiro é um herói incomum. O rapaz é tão ingênuo e impassível que, sinceramente, dá vontade de segurá-lo pelos ombros e dar uma boa sacudida.
Sanshiro está saindo pela primeira vez de sua cidade no interior, Kumamoto, para morar em Tóquio e ingressar na universidade. A partir daí, acompanhamos essa nova etapa em sua vida e as pessoas com quem passa a conviver. Com destaque para o sereno professor Hirota, o impulsivo Yojiro e a indecifrável Mineko.
Na companhia de nosso "pacato cidadão", vamos descobrindo as diferentes faces da grande metrópole. Tradição e modernidade ora coexistem, ora colidem. As descrições propõe um verdadeiro passeio por Tóquio no começo do século XX. Para mim, foi a parte mais encantadora do livro!
O autor aproveita para dar alfinetadas no sistema educacional decadente, as aulas universitárias enfadonhas e professores sem compromisso algum. Também registra mudanças que estavam ocorrendo na época, sejam tecnológicas, como a chegada da eletricidade; ou sociais, com as mulheres ganhando mais voz e autonomia,
deixando alguns bem incomodados. Haraguchi, um artista que frequenta o círculo acadêmico, chega a dizer: "Com as mulheres ganhando importância, começa a surgir um monte de solteiros no mundo. Por isso deveria ser uma regra fundamental da sociedade que as mulheres só devam ganhar importância dentro de certo nível, de modo que não se produzam solteiros assim."
Natsume Soseki não criou aqui uma narrativa cheia de grandes conflitos ou fortes emoções. Há quem considere o enredo e o protagonista monótonos. Mas acredito que ele retratou bem o encanto que pode ser encontrado nas pequenas aventuras e desventuras, encontros e desencontros da vida cotidiana.