“Água Benta e o Diabo”, fala da saga do Marabaixo em Macapá e da resistência dos populares em preservá-lo, apesar das dificuldades. De um lado, a Igreja promovendo a sua dominância e de outro, os negros com sua irreverência e determinação para que a festa do Divino não se extinguisse.
O livro e o título foram inspirados numa declaração de Dom Aristides Piróvano ao Fernando no decorrer de uma entrevista para jornal: “Folclore é folclore, religião é coisa séria e não podemos misturar as duas coisas. A igreja não é contrária à diversão do povo, mas não se pode misturar água benta com o diabo”.“Água Benta e o Diabo”, Fernando recorreu a antigas anotações e encontrou, no meio de pedaços do jornalismo de antigamente, um artigo assinado por Pancrácio Junior, publicado em 31 de maio de 1899 no jornal “Pinsonia”. Nele vê um relato detalhado da festa do Divino Espírito Santo – à qual era vinculado o Marabaixo – e uma enxurrada de críticas ao vigário da Catedral de São José, que não queria ver a liturgia do padroeiro ser embolada à profanação do folclore cultuado pela negrada.
O livro traz ainda depoimentos de macapaenses tradicionais, como o de Zacarias Leite, nascido em 1903, e que foi aluno do padre Julio Maria Lombaerd, um belga que chegou a Macapá em 1913. O que Zacarias Leite conta dá bem a dimensão do desentendimento: “Padre Julio combatia as festas do Marabaixo. Dizia que não passava de batuque e bebedeira, com a exploração de dinheiro, mediante a apresentação da coroa do Divino Espírito Santo. Padre Julio fechava a igreja, mas o povo fincava os mastros na frente da matriz. Era tradicional em Macapá deixar-se essa coroa do Divino na Igreja de São José, de um dia para o outro. O padre Julio não aceitava esse costume. Combatia-o publicamente. Um ano, na igreja, quebrou a coroa de prata do Divino e mandou entregar os pedaços ao festeiro do Marabaixo”.
Fernando revela que as relações entre a Igreja e o Marabaixo se acalmaram um pouco com a criação do Território e a chegada de Janary Nunes para governá-lo. “Para a execução dos seus objetivos, Janary adotou o processo de entendimento e cordialidade para com os moradores mais velhos, chefes patriarcais de famílias tradicionais e líderes de festas religiosas e populares”. Evidentemente que nesse esquema entrava a turma do Marabaixo."
Hélio Pennafort
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