Embora egresso do modernismo de 1922, Dante Milano é, na verdade, anterior ao movimento modernista, do qual participou à distância e ao qual, efetivamente, jamais se filiou nem durante nem depois da festiva e turbulenta década de 1920. Não há dúvida de que apoiou o movimento, pois nele via, como todos os artistas da época, um caminho de libertação estética. A rigor, entretanto, o Modernismo pouco ou nada teria a oferecer-lhe em termos de subsídio literário ou de plataforma estética. E mais: à época da agitação modernista, o poeta Dante Milano já estava pronto, infenso, portanto, a quaisquer aquisições mais profundas e radicais do ponto de vista formal, ainda que aberto e sensível às conquistas expressionais do movimento. Por outro lado, dizer-se que, entre 1920 e 1948 - quando saiu a primeira edição das Poesias -, haja ele se conservado na condição de bissexto não procede: Dante escrevia muito - e muitíssimo destruiu do que escreveu -, conquanto nada publicasse em livro até aquela data. A que se deve, então, esse altivo silêncio, essa monástica reclusão, esse obsessivo mutismo editorial - cúmplice, talvez, daquela "vocação póstuma" a que já aludimos? É o que tentaremos decifrar, leitor, se possível com o teu benévolo e empático beneplácito.
Dante Milano - Obra Reunida
Dante Milano, Sérgio Martagão Gesteira
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Certa feita Carlos Drummond de Andrade, em uma entrevista concedida ao Jornal do Brasil, comentou “(...) Dante Milano é um poeta de extraordinária qualidade que não tem a mínima popularidade. Se você perguntar a um estudante quem é Dante Milano, ele não sabe. Se perguntar quais são os melhores poetas brasileiros, ele não inclui Dante Milano. A popularidade, então não tem a menor importância. (...)”. A entrevista ocorreu no ano de 1987, de lá para cá já se vão mais de uma década e somente agora esta leitora despertou para Dante Milano. O que (até hoje!) vem a comprovar o quão verdadeiras são as palavras do Drummond. Contudo, esta veracidade tem precedente originada no próprio Dante Milano, porque assim o poeta pretendeu. Dante Milano nunca cogitou em vida (o poeta faleceu na manhã de 15 de abril de 1991, pouco antes de completar 92 anos) de publicar seus poemas, o que afinal terminou acontecendo em 1948, quando o poeta beirava os cinquenta anos, mas a sua inteira revelia: um amigo pediu-lhe emprestado os originais e levou-os a Imprensa Nacional.Dante Milano tinha verdadeira aversão à fama, como tão expressamente colocado em um de seus poemas: “Tanto rumor de falsa glória, Só o silencio é musical, Só o silencio, A grave solidão individual, O exílio em si mesmo, O sonho que não está em parte alguma” Daí o poeta ser considerado a maior “vocação póstuma” da literatura brasileira. O livro “Dante Milano - Obra Reunida”, além de apresentar seus poemas, traz também através da visão do poeta diversos textos em prosa sobre assuntos variados ou de abrangente natureza; estudos sobre Dante Alighieri e Leopardi; sobre autores portugueses, de língua estrangeira e da literatura brasileira. Descubra também este admirável poeta brasileiro. Vale a pena conferir! Eu sou um rio, a água fria de um rio. Profundo, cabe em mim todo o vazio, Um reflexo me causa um calafrio. Sou uma pedra de cara escalavrada, Uma testa que pensa, e sonda o nada, Uma face que sonha, ensimesmada. Sou como o vento, rápido e violento, Choro, mas não se entende o meu lamento. Passo e esqueço meu próprio sofrimento. Sou a estrela que à noite se revela, O farol que vê longe, o olhar que vela. O coração aceso, a triste vela. Sou um homem culpado de ser homem, Corpo ardendo em desejos que o consomem, Alma feita de sonhos que se somem. Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta, Ao ver na noite quieta a estrela inquieta: Significação grande, mas secreta. Dante Milano, Tercetos, in “Obra Reunida”.
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