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    Às Quintas -

    Coelho Netto

    WMF Martins Fontes
    2007
    396 páginas
    13h 12m
    ISBN-13: 9788560156160
    Português Brasileiro
    4.1
    4 avaliações
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    As crônicas de "Às Quintas" permitem reavaliar a produção de Coelho Neto, favorecendo a superação dos julgamentos estéticos negativos fixados pela historiografia. Possibilitam, inicialmente, captar as vigas mestras de uma escritura muito ao gosto da belle époque tropical. Um livro virtual desse título está disponível gratuitamente em www.literaturabrasileira.ufsc.br .

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    Henrique Luiz Fendrich09/11/2023Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    Coelho Neto, a celebridade esquecida

    Cristóvão Tezza conta uma história de quando, há coisa de uns 15 anos, começou a escrever crônica, um gênero que até então lhe era estranho. O famoso romancista precisava dar tratos à bola para conseguir assunto para escrever sua crônica semanal e por isso ficou perplexo ao saber que, nos “bons tempos”, Carlos Heitor Cony escrevia oito crônicas por semana. Quis saber então o que Cony fazia quando não tinha assunto sobre o qual escrever, pois, se isso atinge o cronista semanal, imagine o efeito que tem sobre o cronista diário. Talvez Cony tivesse alguma dica poderosa que pudesse ajudar o próprio Tezza e cumprir a sua obrigação semanal. Mas ele apenas respondeu: “Aí eu escrevia uma frase qualquer e seguia adiante”. E, de fato, em grande medida, escrever uma crônica é isso mesmo, começar com uma frase qualquer e seguir adiante, até atingir um limite de caracteres próximo ao exigido pelo editor. A obrigação periódica da crônica não pode se dar ao luxo de esperar pela inspiração, e a fala de Cony demonstra que, muitas vezes, o cronista não sabe aonde quer chegar com seu texto. Agora imaginem que havia um escritor sobre o qual se diz que escrevia três textos por dia (entre crônicas, artigos e alguma ficção ligeira). Em uma semana, portanto, teria escrito 21 textos, e em poucos meses teria material suficiente para organizar não um, mas vários livros – e, de fato, ele publicou uma quantidade “absurda” de livros ao longo da sua vida. Considerem ainda que esse escritor, também autor de vários romances, havia conseguido tamanha aura de respeitabilidade no meio intelectual do seu tempo que, além de ter sido elogiado pelo próprio Machado de Assis, foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. Se os ventos da Suécia soprassem a nosso favor, ele teria sido, pois, o primeiro Nobel brasileiro. Seria de se esperar que, mesmo sem ter recebido a honraria máxima para um escritor, seu nome continuasse a ser cultuado pelo ambiente literário do país, tornando-se até quase tão célebre quanto o próprio Machado, e que suas obras fossem seguidamente reeditadas, além de recomendadas nas escolas e nos vestibulares e estudadas detidamente pelas universidades. E, no entanto, quem hoje já leu um livro de Coelho Neto? Pode-se ir além: quem hoje já leu um único texto, desses três que Coelho Neto escrevia em um único dia da sua vida? Talvez um cidadão que esteja completamente mergulhado na história da literatura brasileira já tenha lido, mas, admitamos, tal autor não costuma ser lido mesmo por aqueles que gostam de ler. Há diferentes razões que podem ser cogitadas para isso, mas, inicialmente, é preciso pegar um livro de Coelho Neto para ler e ver se, de fato, a posteridade lhe foi ingrata, ou se, ao contrário, a intelectualidade do seu tempo é que era “emocionada” demais. Parti então para o sacrifício e li, de cabo a rabo, a antologia de crônicas Às quintas (Martins Fontes, 2007). Devo confessar que já tinha, de antemão, uma opinião sobre Coelho Neto e que ela não era boa. Sabia que o autor tinha a fama de ter um texto difícil, seja pelo uso de palavras pouco usuais, seja pelo excesso de referências eruditas. São características geralmente consideradas inimigas da crônica, pelo menos depois do velho Braga, então lê-lo não era muito animador. E, realmente, já na primeira crônica se sente que o mundo do Coelho Neto é hermético, por mais que escreva um gênero em geral mais despretensioso e de menor sobrevida. O primeiro parágrafo da primeira crônica é uma citação de Herzen, que provavelmente o leitor não sabe quem foi, ao que se segue uma referência aos estudos de Egger, também ignorado pelo leitor. Pinço aqui o terceiro parágrafo dessa crônica, pois bem representa o estilo do autor: “Essas vozes silentes das coisas que, assim como os átomos, só aparecem quando entram na zona de luz, apenas soam quandos nos penetram n’alma, vozes que tanto aprazem aos solitários e que inspiram os poetas, levantam-se da inércia e falam, e cantam, umas tristes, outras heróicas; umas alegres, outras lacrimosas”. Observa-se que até existe um acento lírico, algo que hoje se valoriza na crônica, mas ele é manifestado de maneira que exige um bom esforço de raciocínio do leitor, sob pena de não entender absolutamente nada. Nesse exemplo, a despeito da palavra “silentes”, não se pode dizer que são as palavras que causam algum estranhamento, mas a sua própria organização. Entretanto, no penúltimo parágrafo dessa crônica, lê-se: “De uma liteira partiu um cicio, voz medrosa de amor em timbre trêmulo, voz de alguma açafata que, timidamente, cochichava a alguém, fidalgo, sem dúvida, que, afrontando riscos, se adiantara a pedir a palavra de salvação ou de morte”. Aí já aparece uma escolha vocabular que dificulta a leitura de quem não tem toda a erudição do autor. Pode-se alegar que esses trechos parecem menos compreensíveis porque, aqui, foram tirados de seu contexto, mas o impacto não é muito melhor quando lidos no meio da crônica. Para se ler várias crônicas nesse estilo (e o livro tem 400 páginas!), é inevitável que o leitor “deixe para lᔠalgumas frases e palavras, pois não se pode ter a ilusão de que irá entender tudo. Há livros experimentais em que a dificuldade com a linguagem e o vocabulário é compensada de alguma maneira pelo ritmo da narrativa (penso principalmente no nosso “Grande sertão: veredas”). Nas crônicas de Coelho Neto, porém, não se chega nunca a um nível de abstração tal que o leitor se deixe levar pelas suas palavras, independentemente dos seus significados. Acresce-se a isso o fato de que, definitivamente, não se trata de prosa experimental. O estilo de Coelho Neto, ao contrário, era o mais tradicional e conservador possível. Era exatamente esse estilo que se valorizava nos meios intelectuais da sua época – basta dizer que o tempo de Coelho Neto foi também o de Rui Barbosa, outro que, digamos, não primava pela clareza. Nada posso dizer a respeito de como essas características funcionavam em sua ficção, mas nas crônicas, lidas um século depois de escritas, isso significa uma leitura lenta e arrastada. Podemos admirar a cultura do escritor, mas dificilmente conseguiremos dizer “que coisa boa essa crônica, preciso compartilhar com meus amigos, vou postar um trecho no Instagram”. Curiosamente, na mesma época em que essas crônicas foram escritas, fazia muito sucesso outro cronista, Orestes Barbosa, com estilo completamente avesso ao de Coelho Neto. De fato, Orestes seguia uma linha que privilegiava as marcas da oralidade, notadamente porque fazia a crônica dos detentos e das classes marginalizadas que viviam no Rio de Janeiro. Se não mentem os jornais da época, Orestes se tornou realmente um best-seller com livros como “Na prisão” e “Bam-bam-bã!”. E, contudo, jamais ocorreria a alguém indicar o nome dele para o Nobel de Literatura. Isso talvez signifique que o sucesso de Coelho Neto era bem maior entre os intelectuais do que entre o povo, que possivelmente preferisse Orestes. Coelho Neto, de toda forma, interessava-se pelo povo e pelo Brasil, de maneira geral. Tinha uma noção de patriotismo comum ao seu tempo e falava em amar a terra, orgulhar-se de sua história, honrar a memória dos seus heróis, celebrar os feitos dos seus contemporâneos… Também a nossa língua, “vernáculo formoso”, era algo a ser defendido pelo cronista. Muitas vezes, ele usava a crônica para defender sua ideia de Brasil. Ao fazer isso, também criticava o que considerava uma “mania” do brasileiro, isto é, a de achar que ele mesmo não valia nada – antecipava, pois, a ideia do complexo de vira-lata. Dizia que a própria caridade do brasileiro preferia fazer pelas causas estrangeiras, esquecendo-se dos próprios miseráveis. Reclamava que, em nosso país, não havia ideia que persistisse nem tradição que perdurasse – tudo passava porque não se enraizava. Isso sugere um posicionamento mais conservador, mas Coelho Neto era complexo – se em parte defendia a tradição, em outra fazia crer que ela às vezes não era mais que preguiça de mudar de hábitos ou incapacidade de ter ideias. Aqui e ali, há um monarquismo ligeiramente insinuado, mas o homem era tal que tinha, de vez em quando, até uns rompantes socialistas, como esse: “O capital é conservador… dos seus havares. Não é por espírito de disciplina que ele tanto clama contra a ousadia daquele que, adrajoso e faminto, lhe vai bater à porta, senão porque nele vê uma ameaça ao seu tesouro, um perturbador do seu gozo”. E, talvez de forma ainda mais clara: “As greves, as revoluções, todos os movimentos em que se agitam as massas operárias são tão naturais como a conflagração das vagas no oceano”. Há ainda a eloquente “L’ouragan”, crônica em que ele não hesita em associar a ocorrência de guerras a certos carniceiros que exploravam a ingenuidade do povo pensando apenas em seus lucros. Ao mesmo tempo, é o mesmo sujeito que reclama das roupas dos banhistas (até com alguma crueldade), que diferencia quem é da “sociedade” e quem é “da rua”, que chama moradores em situação de rua de “rebotalhos humanos” – e que, com tudo isso, também acreditava em uma manhã sublime que trouxesse ao mundo a luz perfeita, pacífica e harmoniosa. Há ainda o velho eurocentrismo, que faz tratar os índios como selvagens, mas, no caso de Coelho Neto, esse posicionamento conduz a um “portuguesismo” completamente absurdo aos dias atuais: ele chega a celebrar e agradecer aos portugueses pela descoberta do Brasil: “Foram eles que receberam de Deus a pátria e no-la deram” – ideia e linguagem hoje inconcebíveis! Talvez um pensamento que traduza melhor suas posições seja este: “Conservemos alguma coisa do passado porque o presente só nos tem dado… panos para mangas e decepções em barda”, em que é sugerido um apego ainda a coisas que passaram, mas não total ou absoluto. Isso no que se refere às ideias, porque, na linguagem, ele faz jus completamente à sua fama de passadista. Seja como for, é interessante que também Coelho Neto aborde o inevitável tema da falta de assunto, problema do qual se livrava provavelmente como o Cony e qualquer outro, ou seja, escrevendo, até sair alguma coisa, mas ele admite que nesses cassos recorria à memória – e talvez a melhor crônica do livro, “O telefone”, é resultado de um mergulho em sua memória. Outro dos melhores textos de Coelho Neto no livro é “Um eleitor”, que, contudo, é escrito no formato de conto (gênero, afinal, perfeitamente “abrigável” sob o guarda-chuva que é a crônica). Ele também acompanhava o noticiário, o que parece outra característica indelével, presente mesmo quando o cronista tem um pronunciado nível de erudição. É interessante observar como Coelho Neto conseguia manter uma rotina de escrever tantos textos mantendo sempre essa linguagem complexa, mas essa dificuldade, evidentemente, é só para os leitores, pois para ele era tudo muito natural, era aquele o seu modo cotidiano de se expressar. Na falta de assunto, ele escrevia uma frase difícil qualquer… e seguia adiante.

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    Henrique Maximiano Coelho Neto profile picture

    Henrique Maximiano Coelho Neto

    Foi um escritor (cronista, folclorista, romancista, crítico e teatrólogo), político e professor brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras onde foi o fundador da Cadeira número 2. Foi considerado o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", numa votação realizada em 1928 pela revista 'O Malho'. Apesar disto, foi consideravelmente combatido pelos modernistas, sendo pouco lido desde então, em verdadeiro ostracismo intelectual e literário. Nas palavras de Arnaldo Niskier: "A vitória do modernismo se fez como se houvesse necessidade de abater um grande inimigo, no caso, Coelho Neto".

    30 Livros
    15 Seguidores
    Maranhão, Brasil

    Henrique Maximiano Coelho Neto