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    Os vagantes -

    Olga Tokarczuk

    Tinta Negra Brasil
    2014
    384 páginas
    12h 48m
    ISBN-13: 9788563876300
    Português Brasileiro
    3.9
    10 avaliações
    Leram17Lendo2Querem185Relendo0Abandonos0Resenhas2
    Favoritos2Desejados185Avaliaram10

    Tempo e espaço são os eixos por onde se movem os corpos humanos – ou parte deles. Em uma narrativa onde a descontinuidade dá o tom, palavras como perda, erro e fraqueza fazem um coro bizarro – e fascinante – com a busca secular pela conservação de órgãos e cadáveres, incluindo práticas como a plastinação de corpos em diferentes épocas. Ao ler este livro tropeçamos em acontecimentos dos quais é impossível sair ileso. De Kunick, o homem que se perde da mulher e do filho numa ilha croata durante as férias, a Annushka, que desiste de tudo para vagar pelas estações do metrô de Moscou, passando pelo anatomista holandês Frederik Ruysch e sua técnica de conservação de órgãos com brandy, a autora constrói um labirinto em que correspondências e reflexos apontam para uma lógica, ainda que débil, capaz de encarar o absurdo.

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    Leila de Carvalho e Gonçalves  picture
    Leila de Carvalho e Gonçalves 03/07/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Bieguni

    De autoria da escritora polonesa, Olga Tokarczuk, ?Fights? ou ?Os Vagantes? é o vencedor do Man Booker International Prize de 2018, recebendo a importância de 50.000 libras. Lançado em 2007 e publicado no Brasil sete anos depois pela Editora Tinta Negra, o livro passou praticamente despercebido e só agora vem despertando maior interesse e merece registro a boa tradução de Tomasz Barcinski, direta do idioma original. Mescla de romance e ensaio, trata-se de um coleção de relatos, alguns fictícios e outros baseados em fatos reais, reunidos por uma única narradora jamais nomeada. Ela assume ser uma vagante ou errante, alguém que não consegue fixar raizes num lugar por muito tempo, movida por um persistente e intenso interesse de conhecer tudo que é estragado, imperfeito, aleijado ou quebrado. ?Tenho um interesse todo especial por erros de criação, becos sem saída. Aquilo que deveria desabrochar e que, por algum motivo qualquer, permaneceu atrofiado ou, pelo contrário, desabrochou além do previsto. Tudo o que se desviou da norma, que é pequeno de ais, grande demais, exuberante ou incompleto, monstruoso e repulsivo. Coisas que não se atêm à simetria, que se multiplicam, brotam em vários lugares, ou ao contrario, reduzem seu número a apenas uma unidade. Não tenho qualquer interesse em acontecimentos que se repetem - aqueles sobre os quais se inclina com especial atenção a estatística e que todos celebram com um familiar sorriso de satisfação nos rostos. A minha sensibilidade é teratológica, ligada à tudo que tem a ver com monstruosidade. Tenho uma incessante e exaustiva convicção de ser exatamente aí, no meio de todas essas anomalias, que a verdadeira existência irrompe na superfície e revela a sua natureza.? No total, são 318 páginas divididas em 116 partes de menor ou maior extensão. Relatos que vão desde a dissecação do cadáver de uma prostituta em Amsterdã durante o século XVII até a visita a uma recente exposição de espécimes biológicos ?plastinados?. Para quem como eu desconhecia o termo, a plastinação é uma técnica moderna de mumificação, ideal para estudo e pesquisa da anatomia, que consiste em trocar a água e a gordura dos tecidos por polímeros, privando as bactérias do que elas precisam para sobreviver. Aliás como previra após a leitura da sinopse, em ?Os Vagantes?, os assuntos abordados são fascinantes e marcados pela singularidade. Inúmeras vezes, interrompi a leitura para averiguar se estava diante da imaginação de Olga, de um fato, ou da ficção reescrevendo a realidade. Um exemplo é a macabra viagem de Ludwika J?drzejewicz que, atendendo o último desejo do irmão, Frédéric Chopin, transportou clandestinamente, de Paris à Varsóvia, o coração do compositor num pote com conhaque. Porém, há muito mais, como a biografia imaginada de Philip Verheyen, um cirurgião flamengo, que teria identificado o tendão de Aquiles ou as preocupantes cartas remetidas por Josefina Soliman para Francisco I, nas quais solicitava o corpo do pai, um diplomata negro, que fora postumamente empalhado e estava em exposição no palácio. Resumidamente, o livro trata da questão da desmobilização voluntária e da mobilidade, uma realidade hoje em dia e uma aventura no passado. Também existe uma palavra-chave para o melhor entendimento: ?Bieguni?, o título do livro em polonês. Este é o nome de uma antiga seita russa que rejeitou a vida estabelecida por uma existência de movimentação constante, na tradição do yogis viajantes, dervixes errantes ou monges budistas itinerantes que sobrevivem da bondade de estranhos. Estes vagantes fazem parte de muitas histórias. Numa delas, Annushka, uma dona de casa em crise, encontra uma velha aparentemente "louca" que mostra ser possível fugir de uma vida de sofrimento. Vestida com várias peças de roupa e com a cabeça envolta num trapo, ela é uma bieguni cujo monólogo oferece a voz mais potente do romance:?Todo aquele que parar virará pedra. Todo aquele que fizer uma pausa, por menor que seja, será alfinetado como um inseto, seu coração será trespassado por uma agulha de madeira, suas mãos e seus pés furados e pregados aos umbrais das portas... E é por isso que todos os tiranos - servos infernais de qualquer estirpe - nutrem um ódio mortal aos nômades. É por isso que eles perseguem os ciganos e judeus. É por isso que eles assentam todos os homens livres, marcando-os com um endereço - algo que, para nós, equivale a uma condenação.? Enfim, não importa de onde você vem, nem para onde vai, o que realmente interessa é onde você está. Nota: O livro apresenta capa brochura com abas, foi impresso em papel Pólen soft (80g/m2) e possui confortável diagramação. Também chegou no prazo, o que me surpreendeu, pois encomendei durante a greve dos caminhoneiros. Jundiaí, 3 de julho de 2018.

    5 curtidas

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    3.9 / 10
    • 5 estrelas30%
    • 4 estrelas40%
    • 3 estrelas30%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%
    Olga Tokarczuk profile picture

    Olga Tokarczuk

    Olga Tokarczuk nasceu em 1962, em Sulechów, na Polônia, e hoje vive em Breslau, também na Polônia. Formada em psicologia na Universidade de Varsóvia, estudou os trabalhos do psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961) e chegou a trabalhar como psicoterapeuta por um tempo. Antes de escrever prosa, publicou uma coletânea de poemas. Sua estreia na ficção foi em 1993, com "Prawiek i inne czasy" ("A jornada do povo do livro", em tradução livre). Vencedora do Nobel da Literatura em 2018. Também em 2018, a escritora ganhou o Man Booker International do Reino Unido pelo romance "Flights", que reúne uma série de histórias, como um conto do século 17 sobre o anatomista holandês Philip Verheyen, que dissecou e desenhou detalhes de sua perna amputada, e uma história do século 19 sobre o coração do finado Chopin, que viajou oculto de Paris a Varsóvia. Seus livros são best-sellers na Polônia e foram traduzidos para mais de 25 idiomas, incluindo catalão e chinês. Além de "Os vagantes", seu único livro até agora lançado no Brasil, a editora Todavia planeja lançar, em novembro, o romance "Sobre os ossos dos mortos". A obra retrata "uma professora de inglês aposentada [que] costuma se dedicar ao estudo da astrologia, à poesia de William Blake, à manutenção de casas para alugar e a sabotar armadilhas para impedir a caça de animais silvestres", segundo o material de divulgação. Politicamente engajada à esquerda, ecologista e vegetariana, Olga costuma criticar a política do atual governo nacionalista conservador, do partido Lei e Justiça (PiS). fonte: G1

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    Olga Tokarczuk