Para além da origem das espécies - Um tratado sobre o gênero humano e da arte de pensar
Mark Twain uma vez disse, "Os antigos surrupiaram nossas melhores idéias". Li O Banquete de Platão. Deixarei para outras paragens o diálogo "Apologia de Sócrates". O livro O Banquete é uma obra que não tem data definida, de onde começa sua inclusão na história do pensamento humano, a não ser marcado pela vida de seu autor, Platão, que viveu por volta de 427 à 347 a.C. A obra é um convite a reflexão sobre o amor e uma das mais belas reflexões sobre o tema. Num pequeno resumo há um banquete patrocinado por um dos amigos de Sócrates, Agatão, onde comparecem Sócrates e outros de seus companheiros. Como sempre Sócrates presente nas obras de Platão. Todos os convidados, num total de seis, vão a comer e beber na casa de Agatão. Os convidados são interpelados pelo anfitrião a falar sobre o amor, e um por uma vão tecendo seus discernimento e ideias sobre o tema até chegar ao último palestrante, Sócrates, claro!!! Muitos concluem sobre o amor em formas de pensamentos diversos, até Sócrates, tomando palavras emprestadas de Agatão, expõem uma conversa com Diotima de Mantineia, uma espécie de vidente que para salvar os homens da ira dos deuses orientavam-os sobre os sacrifícios e oferendas que deveriam fazer para agrada-los. A obra é curta mais densa. O belo é tratado como o bem mais desejado mas de certa forma relativizado nas palavras de Diotima, adestrando Sócrates como sua mestra. Sócrates afirma que amamos aquilo que nos falta, e mesmo que detenhamos a coisa amada amamos ainda por carência para que não nos falte no futuro. O discurso do amor não fala do deus Eros em nenhum momento na obra, mais de outros deus, Recurso e da mortal Pobreza. Eros, ou o amor, seria filho deles. É importante notar que na Mitologia Grega, Eros é tido como filho de Afrodite e Ares, ou em outra narrativa de Afrodite com Hefesto. Mas voltando a obra alguns convidados vão conjecturar e afirmar que o amor é o deus primordial, pré-existente antes mesmo do caos, ou o ser humano era um ser de quatro pernas, quatro braços, duas cabeças e um dorso redondo, que por castigo dos deuses são divididos em dois para vagar a encontrar sua outra metade. Mas no meu singelo ponto de vista o ponto alto, e não poderia deixar de ser, do diálogo "Banquete", é quando Diotima, a vidente da qual Sócrates bebeu da fonte, afirma que amar a sabedoria é uma das formas de permitir que não nos escape das mãos o amor pois a temperança é um comportamento sábio que nos permiti perceber que na carência do objeto ou da pessoa amada podemos administrar sua dor por amar algo que se renova sempre, pela reflexões que a vida nos impõem, e o mais impressionante de toda obra é que Diotima fala a Sócrates que a geração de um ser em igual virtude a nossa, ou até maior, por sermos seres mortais, perpetua o objeto amado de nossa pessoa e passamos a imortalidade e a carência deixa de existir quando uma vez o futuro já está preenchido. Diotima chega a comparar o comportamento de animais considerados irracionais com o mesmo padrão de comportamento de um ser humano que cuida de suas crianças e jovens. A obra é magistral e Platão não existe no tempo, ele perpassa a finitude do pensamento e vai além da verdades sempre novas que a ciência nos trás. Fiz uma inevitável comparação à uma das obras seminais da era moderna, de Charles Darwin, "A origem das espécies". Darwin faz uma indagação sobre porque tantas especies na natureza se somos todos de um ancestral comum, e daí sua conclusão sobre a adaptação dessas espécies a ambientes diversos, em condições de sobrevivência diferentes, e da necessidade de adaptar-se e assim mudam sua carga genética. Há uma força que leva os mais aptos a perpetuarem sua carga genética e esta não é meramente biológica mas de algo ontológico, do ser, do gênero, que diferentemente de um ser artificial é dotado de história, mesmo que apenas em seu DNA. No Banquete de Platão é na arte de pensar que a espécie humana chega ao seu destino e não é mudar o que está externo mas adaptar-se a ele e mudar o que há de feio em nós que encontraremos a imortalidade, o amor, e seremos mais felizes, pois o belo não está apenas em nosso filhos mas no agir politicamente em nossa sociedade, na nossa comunidade, daí a reflexão, sabedoria e amor. É ensinar do que é feio para que o feio seja algo belo, não como prática mai por compreensão. Imperdível leitura!!! Em tempos de Bolsonaro e da militarização da ordem e progresso é um convite a amarmos o belo, a imortalidade e do feio ensinarmos que a mudança começa em nós e não nas instituições ou de ordem política.

