É um ótimo volume, esse número 8. Tem, até agora, o melhor início de todos, porque o conto “O tenente Gustl”, do Arthur Schnitzler, é uma das grandes pérolas da literatura de todos os tempos. Fluxo de consciência vários anos antes de Joyce e ainda remete-me à literatura russa, com aqueles tipos esquisitos do Gógol.
E na sequência já tem um Thomas Mann com o curioso “Agnus Dei”. Não demora muito e aparece o Anatole France com o expressivo “Putois”.
Depois o surpreendente Lafcadio Hearn, que me pareceu uma espécie de Poe greco-japonês. “Diplomacia” é um conto em que se combina um gesto para depois de um homem ser guilhotinado, a exemplo de um conto do Villiers de L'Isle-Adam, só que com um belo toque oriental.
Mais para frente, teremos excelentes momentos com Ricarda Huch (“O cantor”), Andreiev (“O grande Slam”), Stephen Leacock (o humorista incrível de “O destino terrível de Melpomenus Jones” e “A vingança do prestidigitador”) e Naoya Shiga (“A morte da mulher do atirador de facas”).
Belos contos também dos desconhecidos Ivan Čankar (“A dessétitsa), Jules Lemaître (“Muito tarde”), Ferenc Molnár (“Conto de ninar”), Rafael Barrett (“A mãe” e “A carteira”), Arnold Bennet “O assasinato do mandarim”), Zygmunt Nidzwiecki (“O dote”) e Johannes Vilhelm Jensen (“Na paz do Natal”).
Esse livro tem, provavelmente, a maior quantidade de contos que eu elogiei, entre os oito volumes que já li.
Ah, sim, tem ainda um conto do O. Henry, apesar da pouca consideração que os organizadores do livro demonstraram em relação a ele. Há dois brasileiros, o sempre difícil Coelho Neto e mais o Simões Lopes Neto, além de latinos como Javier de Viana e Ernesto Montenegro, e o místico Francis Jammes de “O paraíso”.
Um “porém” do livro é o famigerado Strindberg, com um conto, a meu ver, mal escolhido, pois o conto histórico “O império milenar” precisou de 35 notas de rodapé para que a gente tivesse ideia do que é que o escritor estava falando. Se eu quisesse ler contos históricos era uma coisa, mas essa pretende ser uma antologia genérica, e creio que o Strindberg, apesar de toda a misoginia, teria contos mais agradáveis.
Também percebi, um incrível preconceito dos dois organizadores em relação à literatura japonesa antiga, dizendo que só a partir de 1868 é que se podia falar em "literatura. Os dois, em verdade, são muito chatos nos seus comentários introdutórios.
Mas a seleção do livro é muito boa e ele vale muito a pena de ser lido.