Tinha acabado de assistir OVO do Cirque de Soleil ( coreografia da Debora Colker) e um dia andando pelas feirinhas de livros no Rio, encontrei esse livro. Fotos lindíssimas que me remeteram a alguns espetáculos que assisti dessa Companhia excelente. Debora Colker sempre nos apresenta balés contemporâneos muito diferentes dos que estamos acostumados. Perguntamos sempre como eles conseguem dançar entre aqueles vasos delicados, subir em paredes que parecem inalcançáveis, para dizer o menos.
Eu que já fiz muito balé clássico, sei da necessidade da disciplina e da repetição até a exaustão.
O livro comemora os 20 anos desse Companhia de Dança e merece essa comemoração.
Fotos maravilhosas que nos fazem querer assistir tudo de novo, mas não só de fotos é feito esse livro. Existe um texto, pequeno, mas profundo sobre filosofia de arte, movimento e o que essa coreógrafa consagrada utiliza de tudo isso no seu trabalho.
Cito alguns trechos:
"Se há um traço definidor da personalidade de Débora Colker é a sua autoproclamada disciplina. Palavras como determinação, trabalho e comprometimento são frequentes em seu discurso, bem como evidentes no resultado do processo. Esta disciplina se projeta e se materializa em restrições formais estabelecidas para seus bailarinos:dançar numa parede vertical , em antinatural plano perpendicular ao solo (Velox); dançar num espaço exíguo de cerca de um metro quadrado, limitado em dois ângulos por numa parede alta (Cantos, de 4x4); dançar numa grande roda em movimento (Rota)."
"Embora de algum modo se relacione com a tradição das restrições formais, esta prática na coreografia de Débora Colker, está a serviço de outra finalidade:a busca da graça. No século XVIII, a graça é definida como uma espécie de belo:o Belo dinâmico, em movimento, guiado pela liberdade da alma que supera a resistência natural do corpo"
"A conquista da graça parece ser o objetivo da própria dança, ou seja, talvez não haja dança sem graça. "
"Ora, a dança é uma prática intransitiva, que domina o princípio do prazer; logo, não faz sentido que o corpo reproduza, nela, os modos de ser do trabalho - a não ser como meio. É essa aposta de DéborabColker. Volta e meia ela quebra a banca, como na coreografia dos vasos ou na da roda. Na primeira, a suspensão dos vasos na cena final aparece como uma metáfora da suspensão do esforço conquistada pelos bailarinos; os vasos homenageiam os corpos. Na segunda, quando a coreografia se encaminha para o encerramento, os corpos, em posição fetal,ao som de uma música lúdica, giram, emparelhados com a roda, eles mesmos uma roda, subtraídos, como crianças, de todo princípio de realidade, tendo anulado toda a resistência entre o meio e o movimento, harmonia perfeita entre o ser e o mundo, alcançando a graça sublime, o estágio máximo onde a ação se transforma em inação , a graça, numa palavra, absoluta"
Além desse início de texto, o livro vai falar do culto ao corpo diferenciando o corpo na dança e o corpo na academia e esportes.
"O corpo que dança é exatamente isso:um sistema individual com estabilidade e finalidade próprias. Uma máquina sui generais, cuja maior potência é o imprevisível e cuja latência é a dança que atualiza , como a erupção de um vulcão."
"Foi desse modo que um filósofo do século 'XVIII definiu a beleza: finalidade sem fim."