Educação: Temas polêmicos -

    José Mario Pires Azanha

    Martins Fontes
    1995
    242 páginas
    8h 4m
    ISBN-11: 8533604602_
    Português Brasileiro

    Neste livro é possível avaliar o grau de importância e a a gravidade dos problemas educacionais que ainda carecem de solução satisfatória: o vestibular, a escola pública, a articulação entre os graus de ensino, a autonomia da escola, a pesquisa educacional, a escola de tempo integral, etc.

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    Pablo Pax10/03/2024Resenhou um livro
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    Educação, coisa árdua

    Educação, coisa árdua... José Mario Pires Azanha (1931-2004), além de professor da FEUSP, exerceu vários cargos de gestão na área de educação em SP. Esse livro é uma reunião de artigos escritos entre 1987 e 1995, ou seja, entre o nascimento da Constituição de 1988 e a nova LDB de 1996, para a qual muito contribuiu. Suas reflexões sobre o papel dos Conselhos de Educação em todos os níveis de governo são muito originais, porém o cerne que atravessa a obra é a desmistificação de que a escola 'de antigamente' era melhor: "a escola de poucos de ontem era e é historicamente diferente da escola de todos de hoje" (p. 13). Para quem não sabe, 'escola de ontem' é a escola que vigorou em S. Paulo até 1966 e no Brasil como um todo até 1971, quando o regime militar promulgou sua LDB (lei 5692/71): Primário - (1ª a 4ª série, ensino fundamental, aulas com apenas 1 professor) Ginásio - (5ª a 8ª série, primeira etapa do ensino médio, aulas com 8 a 10 professores) Colegial - (1ª a 3ª série, segunda etapa do ensino médio, aulas com 10 ou mais professores) Para cada etapa havia provas de seleção. Mas a partir de 1967, Ulhoa Cintra, então secretário estadual de educação paulista do governo Abreu Sodré (1967-70), acabou com a divisão entre primário, ginásio e colegial e o transformou em ensino de 1º grau (1ª a 8ª série) e de 2º grau (1ª a 3ª), sem provas de seleção, com o objetivo de democratizar o acesso à escola para outros grupos sociais. Os pobres, que geralmente cursavam apenas 4 anos (o primário), com esta reforma passaria a cursar 8 anos (o 1º grau). Tais medidas encontraram resistências ideológicas por parte do professorado que, acostumado com um público homogêneo, os filhos da classe média, agora tinha que lidar com uma nova clientela, os filhos das classes trabalhadoras. A resistência, aliás, foi tanta que o Brasil, entre 1970 e 2000, entrou no rol dos pesquisadores mundiais como o país que mais reprovava alunos, especialmente na 5ª série (do 1º grau) e na 1ª série (do 2º grau), com o argumento de que tais alunos não eram aptos para seguir em frente. José Azanha mostra que esses altos índices de reprovação foi fruto da mentalidade elitista do professorado que, progressista no discurso e na vida pública, agia e se comportava de forma contrária dentro da escola. Os professores do antigo ginásio viam-se como especialistas e não gostavam da ideia de ter que lecionar para 'todo mundo', isto é, para alunos que entraram na "sua escola" sem passar por um processo seletivo. (Aliás, isso era tão forte que ainda nos anos 2000 havia escolas com até três salas de professores, uma para cada etapa!). Havia uma luta por status. É claro que algumas reivindicações dos professores eram legítimas, como melhores condições de trabalho e salariais. Contudo, cegados em sua luta para manter o status de outrora, o professorado não percebeu que a decisão de Ulhoa Cintra era mais política do que pedagógica, portanto, se também tivesse compreendido isso, veriam que as pedagogias e metodologias então usadas com um público pequeno e homogêneo (de classe média), não eram mais adequadas a uma escola diversa e heterogênea (trabalhadores). O resultado de tal resistência, além da repetência, foi o abandono, a evasão e a estigmatização da escola pública, que perdura ainda hoje, mas com algumas mudanças, para melhor, a partir da LDB de 1996: a adoção da repetência por ciclos e não mais por séries (exceto no caso de faltas); e o aluno na atual primeira etapa do fundamental (1ª a 5ª série), embora tenha um professor regente, também possa ter aulas com outros professores. Graças a deus que o professorado daquela época já se aposentou (ou já não estão mais por aqui). Alfim, se quiser ter um panorama da educação brasileira ao longo do século XX e da função da escola, essa coletânea vale a leitura. O autor, além de clareza e dialogar com muitos autores, escreve bem.

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