Galo das trevas -

    Pedro Nava

    Companhia das Letras
    2014
    544 páginas
    18h 8m
    ISBN-13: 9788535923858
    Português Brasileiro

    Estilista consumado, dono de um fraseado em que mescla, a um só tempo, a observação irônica, a viagem sentimental, o detalhismo sensorial e a musicalidade de alguém que leu atentamente Machado, Proust e os modernistas, Pedro Nava faz deste Galo das trevas mais um monumento definitivo de nossa prosa memorialista. Poucas páginas em língua portuguesa descrevem com tanta beleza e inteligência as noites em claro, não raras vezes desesperadoras, provocadas pela insônia, essa satânica inimiga do descanso do corpo e dos sentidos. E Nava vai além: como nos volumes anteriores das Memórias, este é mais um passeio pela trajetória do autor e pela própria história do Brasil. Uma narrativa em que público e privado, campo e cidade, ignorância e ilustração, pobreza e opulência se misturam, produzindo um painel amplo e fecundo de nossa vida íntima e social. Dividido em duas seções, “Negro” e “O branco e marrom”, Galo das trevas foi escrito entre 1978 e 1980, quando o autor, já consagrado pelos quatro volumes anteriores, dava pleno prosseguimento ao seu projeto literário, um dos mais ambiciosos de nossas letras. Acompanhamos nessas páginas o balanço autobiográfico, as observações (atiladas, como de costume) sobre o presente do país, a narrativa - esclarecedora sobre um Brasil do passado - a partir de suas desventuras como médico nos grotões do mundo rural, ainda intocado pela modernidade, e lampejos sobre a Revolução de 30, que deixaria marcas indeléveis em sua geração. Por essas razões, o ciclo memorialístico de Pedro Nava vem sendo saudado, desde seu aparecimento há quarenta anos, como um dos mais poderosos momentos da prosa e da sensibilidade brasileiras.

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    Luis Eduardo Souza Costa04/10/2009Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Nava vive

    Maio é mês das mães, de Maria, das noivas. Maio é o mês de Nava. No último dia 13, completaram-se 26 anos da morte do Dr. Pedro da Silva Nava. Na noite de domingo de 13/05/1984, Nava trabalhava em seu sétimo livro de memórias, quando recebeu um telefonema. Atendeu, nada falou, só ouviu. O quê ? Até hoje não se sabe. O fato é que Dr. Nava , enquanto sua esposa tomava banho, desceu à rua armado, procurou um banco de praça no bairro da Glória, onde morava no Rio de Janeiro, e, com as mãos que tanto curaram ao longo de mais de 50 anos de Medicina, fez o gesto definitivo calando para sempre as vozes que habitavam os labirintos de sua memória. Felizmente, os seis volumes da obra literária de Pedro Nava, deixaram para a posteridade o registro de um escritor único, de um observador pertinente, capaz de restituir detalhes pitorescos e saborosos de sua rica trajetória dividida entre as montanhas mineiras e os mares cariocas. A partir de 1972, com o premiado "Báu de Ossos", o autor passou a limpo sua vida como pretexto para o florescimento tardio de uma vocação literária única. Em " Galo das Trevas", o quinto volume da série, Nava atinge o ápice ao dourar suas lembranças e reflexões, um tanto quanto amargas, do momento em que escreve a obra, com a biografia de seu primo, o também médico José Egon, que teve vida paralela à sua. Como um autor experimentado, um ficcionista no amplo domínio de seu ofício, narra com maestria a trajetória de Egon em meio às dificuldades com a pobre medicina praticada nos rincões do Brasil de fins dos anos 20, recupera o ambiente bôemio mineiro, com seus bares e bordéis míticos e culmina no testemunho privilegiado dos preparativos da Revolução de 30, que teve em Minas um de seus palcos principais. Um autor que faz da memória a arte maior do registro literário.

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